PLANTÃO  na História

Os dez primeiros anos da Rádio
Emissora Santana, por Aldo Mikaeli


Ildefonso Rosa operando a primeira mesa de som da Santana,
uma Telefunken, possivelmente em 1967.
Atrás dele, um gravador "de rolo" marca Ampex.

 


O slogan atual da Rádio Emissora Santana é “A Rádio que caiu do céu”. Mas, a emissora católica de Ponta Grossa surgiu como todas as demais, a partir de um sonho, de uma concessão e de muito trabalho; da competência, da vontade e do empenho de profissionais, evidentemente, inspirados pelo Ser Supremo, o que torna verdadeiro tal slogan. Vivemos, portanto, conhecemos uma boa parte da história da emissora que está prestes a completar seu 43º aniversário. Mas, a exemplo de muitos, ou quase todos, senão todos o atuais funcionários, não conhecíamos as primeiras páginas desta bonita história, que apresentamos, aqui, graças à colaboração de um veteranos radialista, que continua firme na sua missão de comunicar, atuando, agora, no rádio e na televisão da cidade de Carecer, no Mato Grosso.
Ildefonso Rosa é um dos personagens principais em todas as narrativas que possam ser feitas dos primeiros dez anos da Rádio Santana. E, como a própria emissora, também ensinou e formou radialistas, um professor, portanto, de muitos de nós, que nascemos com a vocação, mas, que precisávamos ser descobertos.
Mas, principalmente, e evidentemente, devemos este trabalho ao seu autor: Aldo Mikaeli, a memória viva da Santana e do rádio ponta-grossense.
Em 1972, Aldo teve o trabalho de escrever e montar um álbum, contando boa parte da história da emissora católica, que, então, completava seu primeiros dez anos. Além de uma rica narrativa, Aldo teve o cuidado de afixar naquele álbum, fotos, recortes, documentos, que reuniu quando atuava nos primeiros anos da emissora. Coisas sem valor para a época, como, por exemplo, uma escala de locutores, uma tabela de preços. Mas que, hoje, passados tantos anos, passadas décadas, ganham uma valor histórico espetacular.
Esse álbum não está mais com o Aldo. Passou por algumas mãos não cuidadosas e, para a felicidade de todos nós, que amamos o Rádio, e que amamos a Rádio Santana, foi parar nos guardados de uma pessoa consciente do valor do material que recebia.
O relato foi datilografado por Aldo Mikaeli. Ildefonso escaneou algumas páginas, 21 para sermos exatos, e nos enviou, a nosso pedido, por e-mail. Portanto, e em se tratando de um material antigo, a qualidade das fotos não é das melhores, e alguns escritos da época, se tornam de difícil leitura. Mas, o esforço compensa.
Também vale registrar que, muito do que Aldo escreveu, o fez de memória, o que resultou em alguns desencontros de informações, datas, por exemplo, ou a ausência de alguns nomes. Também observamos que não temos todo o conteúdo do seu trabalho. Quanto ao texto, preferimos digitá-lo, para facilitar a leitura, mas, procuramos ser, o máximo possível, fiéis ao material original.
Esta, é a nossa homenagem à Rádio Santana e, em especial, ao Aldo Mikaeli. Eis o seu relato:

 

Parte I

Meus primeiros contatos com o microfone foram feitos através da Rede de Auto falantes Campos Gerais (RAF), de Carlos Afonso Buck, onde vim a conhecer Sidnei Santos, Flávio Menghini e Jaime Gilberto. A RAF era a voz de Ponta Grossa, que falava para doze pontos diferentes da cidade. Após prestar o serviço militar, tomava parte nas audições do programa “Alvorada Informativa”, transmitido pela Rádio Clube Ponta-grossense, ao lado de Contin Mendes, Luiz Carlos Kloster e Fernando Garcia.
Em abril de 1961, passei a trabalhar como caixa do Banco Mercantil de São Paulo S/A, onde conheci Iraci Travisani Rosa. Em fevereiro de 1962, ainda como caixa do banco,  chamei por Rádio Emissora Santana para receber o pagamento de um título. Ao senhor que compareceu para fazer o pagamento (Iraci) perguntei se não havia vaga no quadro de locutores da rádio. No dia 31 de março daquele ano, eu estava no estúdio da Santana para fazer um teste.
A rádio estava instalada provisoriamente no prédio do Colégio São Luiz e os estúdios ainda estavam sendo montados. Lá estavam Iraci Travisani e Osmar Dias de Oliveira. Tive quer ler notícias várias vezes, pois o Osmar, o “Homem do Gongo”, se batia com o Ampex (gravador de fita de rolo, utilizado na época e que se tornou um símbolo da história da Rádio Santana). Fui feliz no teste e, no dia 3 de abril de 1962 iniciava meu período de trabalho na emissora, cumprindo horário das 20 às 23 horas.
Estávamos anunciando a festa de inauguração da rádio, prometendo a presença de grandes cartazes do Rádio Brasileiro.
Trabalhávamos com amor e carinho na Santana. Éramos Ilson Rosa, Arion Fernandes, Aldo Mikaeli, Wilson Quintino, Dina Silva, Iraci Travisani Rosa, Lineu Daros, Osmar Dias de Oliveira e Jorge Hebel.
Para a festa de inauguração, eram anunciados Agnaldo Rayol, Edith Veiga, Conjunto do Betinho, Carlos Gonzaga e Trio Alma Guarani. O dia 28 de abril de 1962 era aguardado com muita expectativa e, quando esse dia chegou, o povo abriu os braços para receber a nova emissora, a emissora caçula, a Rádio Emissora Santana Ltda.
Aquele dia 28, um sábado, foi cinzento e chuvoso. A bênção à torre da rádio foi dada por sua Excelência Reverendíssima D. Antônio Mazzarotto. E, após a bêncão dos estúdios, foi servido um coquetel às autoridades, na sede da emissora, à Praça Barão do Rio Branco, 128.

 Ainda naquele dia 28 de abril de 1962, no Clube Ponta-grossense, aconteceu a apresentação do “duo pianístico” Aninha Machado Gonçalves e Dr. Gabriel de Paula Machado. Na segunda parte, o Conjunto de Vozes Madrigal, criado em setembro de 1961 e com sua primeira apresentação ao público sob a regência do maestro Gabriel de Paula Machado.
Os números musicais eram anunciados pelo casal Dina Silva e Iraci Travisani. Na terceira parte, a presença do Sexteto Paulistano de Violões, sob a direção do maestro Scupinari, com apresentações em diversos teatros, como o Teatro Municipal, Teatro de Cultura Artística, Teatro São Paulo e, inclusive, na televisão paulista. O sexteto chegou a gravar um LP (Long-play), merecendo o Disco de Ouro.
O magnífico espetáculo foi encerrado às 23:30 horas, aproximadamente. Saudando a nova emissora, falou em nome da imprensa o saudoso Daily Luiz Wambier, e, em nome da cidade, falou o prefeito Eurico Batista rosas. Era a amostra do que seria o show do dia 29 de abril de 1962.

O dia 29 de abril de 1962 acordou com um sol radioso, iluminando a cidade. E, esta, acordou em seguida, com todos na expectativa de ver seus artistas no grandioso show promovido pela Rádio Santana. Eram artistas de grande cartaz, e o que mais chamava atenção era Agnaldo Rayol, que, na época, despontava como o “Rei da Voz”.
Na Churrascaria Expedicionário, foi oferecido um almoço aos funcionários e ao Conjunto de Vozes Madrigal. O colega Lineu Daros foi a Curitiba buscar os artistas, que chegaram atrasados, devido a um desastre que ocorrera na auto-estrada Curitiba-Ponta Grossa.
À noite, tendo como local o Clube Princesa dos Campos, foi realizado o monumental show com os artistas prometidos, aos quais não foram economizados aplausos. O salão estava literalmente tomado. E, na segunda fila, se encontrava D. Geraldo Pellanda. A saudação às autoridades e ao povo

foi lida por Mário Vendramel (Foto retirada do site www.ulustosa.trix.net), da PR-B2 de Curitiba. Lembro de uma cena pitoresca com o mesmo: Estava ele trajado de smoking, e, durante a leitura da saudação, sua gravata borboleta desprendeu-se de um lado somente, causando lamúrias entre os presentes. Ele estava muito concentrado na leitura, quando a gravata desprendeu-se de todo, caindo ao chão, o que motivou certa graça ao espetáculo, o que não afetou, nem poderia afetar, o conhecido homem do rádio paranaense.
O público ficou satisfeito com a grandiosidade do espetáculo, e a Santana, a emissora caçula da Princesa dos Campos era o assunto do momento na cidade, a coqueluche em todos os comentários.
Estava, portanto, inaugurada a Rádio Emissora Santana. Dali para frente, uma meta a cumprir: fazer o rádio de Ponta Grossa.

(segue)

 
 
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