O Curso de Medicina da UEPG

No dia 12 de maio de 2003, o então governador do Paraná, Roberto Requião, deu o tapa: Por decreto, sem consultar a população ponta-grossense, sem ouvir nossas lideranças, nem mesmo a própria UEPG, determinou a suspensão do Curso de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa. E, sem querer, causou um fato espetacular: A união, por um mesmo objetivo, uma mesma reação.

Todas as forças políticas, que souberam superar as divergências, as lideranças, as entidades, o povo, numa demonstração histórica, que a Princesa dos Campos, quando ofendida, humilhada, sabe ser rebelde. Esta, é a história que o Plantão recorda, nesta página especial.

“O governador do Estado do Paraná, no uso das atribuições que lhe confere o art. 8, incisos V e VI, da Constituição Estadual, tendo em vista o contido no art. 10, inciso IV, combinado com o art. 17 da Lei Federal nº 8.485, de 03 de junho de 1987, e considerando:

I – A impossibilidade do Governo do Estado em arcar com as despesas exigidas para a manutenção do Curso de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG, no montante de cerca de R$ 14.000.000 (quatorze milhões de reais), no período de 2003 a 2008, dos quais R$ 5.200.000 em 2003 e 2004, destinados ao pagamento de pessoal docente e técnico-administrativo, à\s despesas com infra-estrutura de laboratórios didáticos e materiais e à outras despesas de custeio, sem prejuízo do cumprimento das metas estabelecidas consoante o art. 4º, e considerando, ainda, os artigos 16 e 17, que tratam do aumento de despesas continuadas, todos da Lei Complementar 101/2000;

II – Considerando, também, que as despesas referidas no inciso I poderão prejudicar os investimentos constitucionais e obrigatórios em Educação e Saúde, assim como em Segurança Pública, além das demais obrigações já assumidas pelo Estado, relativas a obras e serviços públicos que já vinham sendo prestados aos cidadãos;

III – Considerando, finalmente, a impossibilidade financeira para os investimentos necessários à construção do Hospital Universitário, no montgante estimado em R$ 52.000.000 (cinqüenta e dois milhões de reais) até 2008, dos quais 6.000.000 (seis milhões de reais) em 2003, ou para a contratação de hospital local para o suficiente atendimento médico exigido para hospitais escolas, pelos mesmos motivos já expostos no inciso anterior;

DECRETA:
Art. 1º. Fica suspenso o Curso de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG;

Art. 2º . A Universidade Estadual de Ponta grossa – UEPG, em conjunto com a Secretaria de Estado da ciência, Tecnologia e Ensino Superior, deverá adotar as providências necessárias ao cumprimento do presente Decreto;

Art.3º. Ficam autorizadas as Instituições de Ensino Superior Estaduais, que possuem curso regular de Medicina, a receberem, se houver adequação legal,  transferência de matrículas efetuadas no curso correspondente na Universidade Estadual de Ponta GHrossa – UEPG e por meio deste ato suspenso;

Art.4º. Este Decreto entará em vigor na data de sua publicação:

Art. 5º. Revogam-se as disposições em contrário.

Curitiba, em 12 de maio de 2003, 183º da Independência e 115º da República.
Roberto Requião,
Governador do Estado
Aldair Tarcício Rizzi,
Secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e ensino Superior.


Curso de Medicina: Um sonho de mais de 30 anos

No dia 6 de abril de 2001, o deputado estadual Plauto Miró Guimarães Filho (foto) (então PFL) anunciou a criação do Curso de Medicina na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Na época o Jornal Diário da Manhã (que hoje não mais circula) noticiou o fato, em manchete, relatando que o anúncio foi feito logo depois de reunião que o deputado manteve, na Casa Civil (Governo de Jaime Lerner), com o chefe da Pasta, Alceni Guerra, e com o então reitor da UEPG, Roberto Frederico Merhy.

Lembrou o jornal que a implantação daquele curso vinha sendo buscada desde 1968.

Plauto afirmou que a conquista foi uma das principais da história da cidade. “A população ganha, a cidade ganha e os demais cursos na área da Saúde também, porque terão uma estrutura melhor”, comemorou o deputado. Fora apresentado ao governo um levantamento de custo estimado, para implantação do primeiro ano do curso, calculado em quase 12 milhões de reais, a serem gastos com pessoal, equipamentos e laboratórios, não incluído o Hospital Universitário. E foi anunciado que Lerner estaria, três dias depois, assinando o termo de implantação. Isto permitiu a programação do primeiro vestibular para Medicina já em 2002, para o início das aulas no ano seguinte.

Ao mesmo tempo em que anunciava o Curso de Medicina, o deputado Plauto informava que o governo estaria liberando os 12 milhões necessários ao primeiro ano da faculdade, para a montagem da estrutura.

Copel
Plauto Filho retomou o pedido em favor da Universidade no momento em que o Governo Lerner buscava a aprovação, pela Assembléia Legislativa, da proposta de venda, pelo governo, das ações da Copel. O voto de Plauto já estava definido, pois, líder do PFL, fazia parte da bancada governista. Mesmo assim, reivindicou, por conta daquela posição, benefícios para Ponta Grossa e os Campos Gerais. Entre eles, o mais significativo, o Curso de Medicina.

Assinatura
Com efeito, no dia 9 de abril de 2001, no Palácio Iguaçu, em solenidade, com as presenças do secretário da Ciência, Tcnologia e Ensino Superior, Ramiro Wahrhaftig, de Plauto Filho, do refeito Péricles de Mello, o reitor Merhy e o presidente da Associação dos Municípios dos Campos Gerais, Reinaldo Cardoso (prefeito de Castro), o vice-prefeito Ricardo Mussi, o presidente da Associação Comercial, Douglas Fonseca, e de vereadores, o governador Jaime Lerner assinou um despacho governamental autorizando a criação do Curso de Medicina da UEPG.

”Atendendo aos anseios da sociedade dos Campos Gerais, que utiliza-se de sua cidade pólo – Ponta Grossa -, no que ela oferece como centro de formação cultural/profissional e, ainda, à necessidade de viabilizar a ampliação da formação de nível universitário especializado, especificamente na are a de Ciências Biológicas, declaro minha autorização para que a Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia, promova as gestões necessárias de estudos e apoio à implantação do Curso de Medicina na Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG.

Curitiba, 9 de abril de 2001.
Jaime Lerner
Governador do Estado.

Entusiasmo
No dia 14, o reitor Merhy, demonstrava o entusiasmo da UEPG pela conquista de Medicina, quando anunciou, ao mesmo jornal, a criação de uma comissão especial para a elaboração do projeto técnico do curso. Ele informou que todo o trabalho seria no sentido de garantir a realização do primeiro vestibular em julho de 2002, para as primeiras quarenta vagas. Ao mesmo tempo, deixou claro que Medicina não viria para prejudicar os demais cursos da área de Saúde, ao contrário, estes seriam beneficiados, pois Medicina traria recursos para laboratórios e toda a estrutura para o setor.


 

Lerner
”Quem aposta contra, vai perder, de novo”, pronunciou o governador Jaime Lerner, no dia 24 de abril de 2001, em discurso que fez na solenidade de inauguração da Masisa, em Ponta Grossa. E reforçou: “Temos uma posição de sempre honrar os nossos compromissos, e vamos fazer isto. O Curso de Medicina é fundamental para Ponta Grossa e para o Paraná”.

Começo do fim
2002 – Transcorria a campanha eleitoral e, findo o primeiro turno, disputavam o Palácio Iguaçu os senadores Álvaro Dias e Roberto Requião. Plauto Miró Guimarães Filho, que apoiou no turno inicial a candidatura do tucano Beto Richa, subiu ao palanque de Álvaro, no qual já se encontrava, desde o início, o deputado Jocelito Canto.

Com Requião eleito, deputado
temia pelo futuro de Medicina

As pesquisas e o próprio andamento da campanha eleitoral de 2002 apontavam para uma vitória de Roberto Requião, no segundo turno, à sucessão do governador Jaime Lerner. Seu adversário, Álvaro Dias, havia prometido dar continuidade ao projeto do Curso de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa. O deputado Plauto Miró Guimarães Filho já demonstrava, com palavras e atitudes, sua preocupação com a continuidade do curso, no governo que se instalaria. Quando, já eleito, Requião trabalhava a montagem de sua bancada de sustentação na Assembléia Legislativa, pessoas de seu grupo mantinham contatos, inclusive com o próprio Plauto.

Até então, a preocupação do deputado do PFL não era exatamente com a possibilidade do fechamento do curso, considerado “um fato consumado”. Mas, com a continuidade dos investimentos necessários à estrutura, pois, o que existia eram as condições para o funcionamento do primeiro ano do curso, além das previsões orçamentárias para 2003, e um plano de investimentos para os anos seguintes.

Plauto admitiu a possibilidade de - mesmo que seus dois candidatos ao governo, Beto Richa no primeiro turno, e Álvaro, no segundo, terem perdido a eleição - somar-se à futura bancada governista e sustentar, na Assembléia, os projetos de iniciativa do Executivo, de interesse do Paraná. Mas, para isto, apresentou reivindicações em favor de Ponta Grossa e dos Campos Gerais, a serem atendidas no decorrer do governo. Entre elas, a consolidação do Curso de Medicina da UEPG.

Não houve entendimento entre Plauto, o PFL e o futuro governo. Quem, do lado de Requião, tentou conquistar tal apoio, não imaginava que o governador eleito escolheria como seu principal adversário o deputado pefelista de Ponta Grossa. Requião daria, depois, várias demonstrações da opção que fez.

Também em 2002, como fora anunciado, aconteceram as duas etapas do Vestibular da UEPG para 2003, os vestibulares de Inverno e Verão, com a inclusão do Curso de Medicina. E os primeiros 40 acadêmicos iniciaram suas aulas. Um sonho que se realizava para aqueles estudantes, para uma cidade e uma grande região.


Associação Médica do Paraná
fere, de morte, Medicina/UEPG

Final de abril de 2003 – Ponta Grossa, através de suas lideranças, se mostrava preocupada com as questões da Saúde. Especialmente a falta de médicos, de medicamentos, de maior atenção de parte do governo. O deputado Jocelito Canto travava uma batalha pela conquista de um maior número de leitos de UTI, já que o déficit era muito grande, como deficitário era o número de AIHs – Autorização para Internamento Hospitalar, além de várias outras reivindicações, em favor de uma população carente no setor da Saúde.

O vereador Leopoldo Cunha Neto apresentou uma Moção de Apelo ao governador Roberto Requião, para o atendimento às necessidades dos ponta-grossenses, e realizou uma caminhada desde o prédio da Câmara Municipal até a porta do Palácio Iguaçu, meta atingida 30 horas depois, para protocolar, no Palácio, a tal moção. Jocelito participou daquela caminhada.

A cidade precisava do apoio do governo, e, também, das lideranças estaduais e, é claro, das entidades médicas. Os caminhantes sequer foram recebidos pelo governador.
 
Primeiro golpe
Ao contrário desse apoio, ainda antes de terminar aquele abril, o ponta-grossense foi surpreendido pela publicação, na Gazeta do Povo, de uma matéria, com base em “Nota Oficial” da Associação Médica do Paraná, que questionou a qualidade do Curso de Medicina da UEPG. Dizia, ainda, de uma mobilização de entidades pelo fechamento do curso. 
 

Vereadores repudiam Associação Médica
Os vereadores Leopoldo Cunha Neto e Eliel Polini apresentaram uma Moção de Repúdio às associações médicas Brasileira e do Paraná, pelas manifestações contra Medicina/UEPG, já que as duas entidades trabalhavam em conjunto pelo fechamento do curso.
Nem todos os vereadores apoiaram a moção, que acabou sendo aprovada. Consta, em nossas anotações da época, que os vereadores médicos, Pascoal Adura, Gualter Maurício Andrade e Messias Carneiro de Moraes não assinaramo documento, os dois primeiros porque se negaram, e o último porque não se encontrava na Câmara quando da coleta das assinaturas. Também não quis assinar o vereador Nereu Malquias.

Mais adiante, o leitor perceberá que a diretoria da Associação Médica de Ponta Grossa foi mais corajosa, nesse sentido.

A Associação Médica, na época, realizava uma verdadeira campanha contra a criação de escolas médicas, o que chamava de “oportunismo”.

A cidade reagiu. O reitor da UEPG, Paulo Roberto Godoy, rebateu as acusações. O deputado Plauto Miró Guimarães Filho se revoltou. Disse que, ao contrário de combater o curso, a entidade deveria, sim, colaborar, oferecer sua experiência e seus conhecimentos em favor da faculdade.

Convocação
O movimento de entidades médicas contra o Curso de Medicina da UEPG continuou no início de maio. Não havia o respeito dos dirigentes dessas entidades sequer aos respeitados profissionais que atuavam no curso. Foi realizado, em Curitiba. O “Pré-Encontro Nacional das Entidades Médicas – Pré-Enem”, reunindo médicos e dirigentes de entidades representativas do setor das regiões Sul e Sudeste. Era noticiado que tais entidades defendiam o fechamento do curso em Ponta Grossa. O argumento apresentado pelo vice-presidente da Associação Médica Brasileira, Ronaldo da Rocha Loures Bueno, era que já existiam cursos de Medicina em excesso.

O deputado Plauto Filho, revoltado com esta e outras manifestações, conclamou a sociedade local e regional para uma mobilização e uma audiência como governador Roberto Requião. A intenção era a de ouvir a opinião do governador a respeito da polêmica e sobre a liberação dos recursos constantes do Orçamento do Estado para a Faculdade de Medicina. “Agora, não se trata mais da luta de uma, ou algumas lideranças políticas, mas, da sociedade como um todo”, bradava o deputado.

Movimento
A audiência com o governador não aconteceu. Mas, a mobilização da sociedade, sim. No dia 6 de maio, atendendo sugestão do deputado Plauto, o reitor da UEPG, Paulo Roberto Godoy, recebeu uma manifestação de apoio à instituição e ao Curso de Medicina, em resposta às incursões da Associação Médica do Paraná – AMP, que pedia o fechamento do curso. Lideranças da comunidade, professores e alunos se somavam às manifestações de políticos como vereadores, o presidente da Câmara Municipal, Delmar Pimentel, o vice-prefeito Ricardo Mussi, o prefeito Péricles de Mello e o próprio Plauto Filho.

Era uma primeira demonstração de que a cidade, quando provocada, sabe unir forças e reagir.

No mesmo dia, o presidente da Associação Médica de Ponta Grossa, Francisco Barros, visitou o reitor Godoy e os alunos do primeiro ano de Medicina. E declarou seu apoio ao curso, além de se colocar à disposição para ajudar na luta. “Existe uma equipe de pessoas responsáveis e altamente qualificadas, que atendem o alcance social que o curso representa para a Região dos Campos Gerais”, pronunciou o médico, em resposta à postura das associações médicas do Paraná e Brasileira. Além disto, em conjunto com a Unimed local, a Associação Médica de Ponta Grossa apresentou uma carta de apoio ao Curso de Medicina.

Ponta Grossa, 06 de maio, de 2003.
Século XXI, ano de 2003, Era da Informação, do Conhecimento, e onde as mudanças ocorrem em tal velocidade que temos dificuldade em acompanhá-las.
Posta Grossa, cidade pólo de uma das regiões que mis se desenvolvem no Estado do Paraná.

Universidade Estadual de Ponta Grossa, entidade de ensino superior com 33 anos de existência, de cujos bancos universitários saíram centenas de personalidades de destaque profissional, que se fôssemos elencar preencheríamos diversas laudas e, com certeza, incorreríamos em falhas pois não lembraríamos de muitos deles.

Associação Médica de Ponta Grossa, entidade representativa da classe médica de nossa cidade, com existência há 72 anos, com diretoria constituída e com representatividade legal e moral para defender os interesses associativos de seus membros.

Unimed Ponta Grossa, entidade representativa da defesa do campo de trabalho dos médicos da Região dos Campos Gerais.

Estas são apenas algumas das inúmeras instituições que podemos citar como diretamente interessadas na evolução e no crescimento de um curso de Medicina em nossa região.

Mas, sem nenhum escrúpulo, a começar pela Associação Médica de Ponta Grossa, todas foram colocadas à margem, por pessoas alheias aos nossos interesses e motivadas por não se sebe quais objetivos, do processo de discussão sobre o Curso de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa.

Senhores cuja representatividade legal não discutimos, mas cuja “representatividade de fato” é inteiramente questionável, visto que em muitos anos no comando das entidades que “dirigem”, nunca, aqui, moveram uma palha para discutir o estado de saúde e a qualidade do campo de trabalho do médico de Ponta Grossa e região dos Campos Gerais.

Pessoas que parecem viver no século passado quando as coisas eram decididas por poucos e cumpridas por muitos e que, até agora, não perceberam que as mudanças ocorreram e que vivemos mina época onde os direitos obrigatoriamente devem ser preservados.

Se esses “representantes dos médicos”, como são rotulados na imprensa do nosso estado, querem melhorar as condições do exercício profissional da nossa classe, deveriam estar preocupados e estar procurando discutir una política federal de atendimento à saúde, lutando por ima distribuição mais homogênea no território nacional dos profissionais médicos recém-formados, por uma melhor remuneração pelos atos médicos, por mais recursos destinados para o fornecimento de medicamentos à sofrida população de nosso País, contra o sucateamento de nossas instituições hospitalares, enfim, por uma vida mais saudável do povo brasileiro.

Mas, talvez, estas batalhas sejam muito grandes para serem enfrentadas, talvez seja mais fácil obter sucesso lutando em causas menores, criticando aqueles que querem crescer, pois pequenos é como desejam que permaneçam.

Porém, nós, membros da comunidade de Ponta Grossa, não aceitamos as tentativas de interferência nos destinos das coisas de nossa região.

Nós, membros da classe médica diretamente interessada no assunto em questão, exigimos mais respeito pelo nosso nome como classe, exigimos mais respeito pelos direitos obtidos por nossa comunidade, exigimos mais respeito pelas instituições de nossa cidade e hipotecamos apoio total e irrestrito ao Curso de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa e a todos aqueles que, como nós, querem ver a continuidade do desenvolvimento sócio-educacional do nosso país.

Aqueles que pensam que podem dirigir nosso destino estão completamente enganados, estão na rota contrária do nosso crescimento, e devam entender que a sociedade dos Campos Gerais tem maturidade mais do que suficiente para saber o que quer. E o que queremos é a prerrogativa de decidir por nós meamos, não queremos nada além do que a garantia de nossos direitos, pois de nossos deveres saberemos ser cumpridores.

Associação Médica de Ponta Grossa
Unimed Ponta Grossa

Péricles
O prefeito Péricles de Mello (foto), além de declarar apoio à Medicina/UEPG, assumiu o compromisso de reivindicar junto ao governo federal para a estruturação da disciplina. Declarou o prefeito petista que “o curso veio para contemplar um sonho e uma luta de mais de 30 anos, não só de Ponta Grossa, mas, de toda a região. O curso”, perseguiu, “valoriza ainda mais a nossa universidade,que é respeitada em todo o País”.

Sai fora
O vereador Pascoal Adura, médico, que não quis assinar a moção de repúdio às associações médicas do Paraná e Brasileira, resolveu fazer seu próprio protesto. Anunciou na Câmara Municipal ter enviado ofício às duas entidades, comunicando seu desligamento como filiado, “pelas atitudes dos atuais dirigentes”, não em repúdio às entidades, explicando, assim porque não assinou a moção.


 

Complicou
A seqüência dos fatos, até o dia 8 de maio de 2003 já mostravam que a situação era grave. Passou a “gravíssima”, indicando um estágio terminal para o Curso de Medicina, quando, naquele dia, antes de uma viagem à Argentina, o governador Roberto Requião (foto) surpreendeu a sociedade de Ponta Grossa e dos Campos Gerais, com declaração que deu ao final de uma reunião que mantinha com proprietários e diretores de jornais, emissoras de rádio e televisão do Paraná.

Disse o governador que tinha “um sério problema para resolver”, no caso, Medicina da UEPG, curso que, segundo ele, “foi criado a partir de uma irresponsabilidade política”. Tom de discurso que caracterizava, mais do que um pensamento racional, a ira contra seu antecessor, o ex-governador Jaime Lerner, e contra o deputado Plauto Miró Guimarães Filho. De acordo com o governador, o Estado não teria como manter o curso que “herdou” de Lerner. Reclamou que as universidades já reivindicavam 20 milhões de reais, que o governo não tinha.

Requião pegou mais pesado, demonstrando ter posição definida quando à Medicina/UEPG, quando disse que o curso estaria funcionando sem condições e a Universidade “mentindo” para os alunos e “enganando” os pais dos acadêmicos. ‘Sei que vou pagar um preço caro, mas, governar é isto”, declarou Roberto Requião.

Já sabia
Interessante é que o deputado Jocelito Canto, depois que todos tomaram conhecimento, disse que já conhecia a posição do governador, e que tinha inclusive uma declaração gravada de Requião a respeito. Preferiu não mostrar tal gravação, nem revelar os fatos. O decreto para o fim de Medicina estava pronto, faltando, apenas, a assinatura do governador, o que deveria fazer quando retornasse da Argentina.

O assunto tinha sido tratado em Curitiba, entre Jocelito, Plauto e outros deputados, estes ligados ao governo, entre eles, o líder do governo na Assembléia, Ângelo Vanhoni. Este argumentou que a decisão do governador somente se daria uma semana depois, e que nada aconteceria antes de Requião ouvir as lideranças de Ponta Grossa. Até então, se acreditava nessa conversa, porque, até então, se acreditava em Vanhoni.

Pelo telefone
Também no dia 8 de maio, o jornalista Adail Inglês gravou seu programa de televisão, “Verdade em Pauta”, da TVM (TV a cabo de Ponta Grossa), em sua sala, no Diário da Manhã. Participaram da gravação Plauto, Jocelito, o reitor Paulo Godoy, o presidente da Associação Médica de Ponta Grossa e o cartorário Valter Sâmara.

O assunto, evidentemente, era o Curso de Medicina. Daquela sala, Jocelito e Sâmara ligaram para Vanhoni, o qual se comprometeu em vir a Ponta Grossa no dia seguinte, para conhecer as instalações do curso.

E veio
De fato, no dia 9 o líder do governo estava em Ponta Grossa, sendo recebido pelo prefeito Péricles de Mello, em seu gabinete. Jocelito e Plauto se fizeram presentes, juntamente com vereadores e outras lideranças. Era o gabinete do prefeito do PT servindo de palco para o encontro de lideranças de partidos e posições diferentes, adversários políticos, e até mesmo inimigos políticos. Sem dúvida, Ponta Grossa estava se unindo em favor de Medicina. Aí, sim, Roberto Requião passou a ter um problema, e a saber que sua decisão poderia, mesmo lhe custar caro, na seqüência. “Governar, é isto”.

Veio e viu
Ainda no gabinete de Péricles, o reitor da UEPG mostrou a Ângelo Vanhoni todo o projeto de Medicina, as condições, a estrutura, as previsões orçamentárias e a importância do curso. Depois, todos seguiram ao Campus de Uvaranas, quando o líder de Requião pode conhecer as obras, as instalações e até mesmo conversar com professores e acadêmicos. Vanhoni assumiu o compromisso de estabelecer o diálogo entre a cidade e o governador, para que, antes de uma decisão final de Requião, houvesse uma “ampla discussão”. Todos acreditaram!


 

Era o fim; jogando conversa fora!

A história foi um tanto quanto estranha. Mas, é o que ficou registrado. Na tarde do dia 12 de maio de 2003, em Curitiba o secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Aldair Rizzi (foto), estava reunido com lideranças políticas de Ponta Grossa, e com o reitor da UEPG Paulo Roberto Godoy. Discutiam o Curso de Medicina. O pessoal daqui continuava tentando convencer o governo da importância e das condições para a manutenção da faculdade. Falavam, argumentavam, esperando que aquele encontro resultasse em uma audiência com o governador Roberto Requião, quem sabe no dia seguinte.

Conversa fora
Dizia o reitor ao secretário, sobe a estrutura que o curso dispunha, os recursos já liberados e os previstos no Orçamento do Estado, entre outros itens, especialmente a proposta da Prefeitura da utilização do Ponto Socorro e do Hospital da Criança para servirem de “Hospital Universitário”, sendo que o Município continuaria investindo nas duas unidades.

Não sabia o reitor, nem as lideranças que participavam da reunião sabiam, que tudo não passava de um mero bate-papo, que ele e os demais estavam, literalmente, jogando conversa fora.

Acontece que, antes do início daquela reunião com o secretário do Ensino Superior com as lideranças da cidade, o governador Roberto Requião, antes de viajar para a Argentina, já havia assinado o decreto que mandava para a prancha o Curso de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa. E, com ele, tudo o que representava de esperança, de sonhos, da alegria da um povo. Era o que se chamou depois, de “um tapa na cada da Princesa”.

Não sabia
Interessante do que se registrou dos fatos, é que, estando reunido com lideranças daqui, o secretário do Ensino Superior, Aldair Rizzi, não sabia da decisão do governador. Não sabia que o curso já estava suspenso, por isto, alimentava esperanças. Mais curioso foi que Rizzi não fez o que faria uma outra pessoa de bem, que tem brios, que tem orgulho: Rizzi não reagiu e não pediu sua exoneração do cargo, por conta da traição de que teria sido vítima, caso, de fato, não soubesse da sentença.

E o Vanhoni?
Nunca se soube onde foi parar o tal compromisso assumido, aqui, perante a comunidade de Ponta Grossa, pelo líder do governo na Assembléia, Ângelo Vanhoni, do diálogo entre a cidade e o governador Roberto Requião. Possivelmente possa ter parado na sua consciência, ou na ciência de que não tinha prestígio suficiente junto ao governador, ou não teve qualquer disposição em ajudar. Quem acreditou, acreditou!

Humilhação
No dia seguinte ao da publicação do decreto que suspendeu o Curso de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa, o jornalista Adail Inglês, do Diário da Manhã, escreveu o seguinte artigo, publicado no dia 14 de maio de 2003 (Leia, ao  lado)

O fechamento do curso desmerece
o conceito de nossa Universidade

 Mesmo com todas as razões do mundo, o governador Roberto Requião não tinha o direito de humilhar Ponta Grossa e desmoralizar a nossa Universidade. Ainda que tivesse essas razões, jamais poderia ter feito o que fez. E o pior é que está a fazer do gesto do fechamento do curso um instrumento de inspiração para o discurso do momento, passando informações que não correspondem com a realidade. A cidade nunca cometeu um ato de descortesia com Roberto Requião. Logo, não parece justo que esteja sendo agredida por ele, em cima de informações que lhe passaram, mas que são irreais, falsas, mentirosas.

A Universidade Estadual de Ponta Grossa, seguramente, de todas as universidades estaduais do Paraná é a que pode exibir o melhor comportamento, no respeito aos orçamentos atribuídos a cada uma das instituições de ensino superior público do Estado. Não existe um único elemento, no histórico de nossa instituição, que possa ser configurado como um ato de irresponsabilidade. Se a Universidade não tivesse absorvido, com tanta fidelidade, o perfil cultural de nosso povo, de excesso de zelo e de responsabilidade, de há muito o Curso de Medicina já estaria funcionando. E, assim, teríamos escapado dessa ação, severa e parcial, do governa dor Roberto Requião.

E o que há de mais extraordinário em tudo isso, é que o governador do Estado não ouviu ninguém da Universidade, ninguém da cidade, como se não devesse a menor satisfação à comunidade. À mesma comunidade, que lhe assegurou vitória nas urnas do ano passado e nas eleições de 90. Esse é o dado inusitado, por que ninguém sabe explicar a razão determinante do fechamento do Curso de Medicina, simplesmente, porque ninguém sabe, porque ninguém foi recebido pelo governador, porque ninguém conseguiu expor as razões da comunidade, porque a ninguém foi dado esse direito.

A Universidade Estadual de Ponta Grossa, pelo trabalho de todas as suas administrações, conseguiu construir um nome, um prestígio, um conceito no cenário do ensino público brasileiro, mormente, entre as instituições públicas do terceiro grau. E, tanto conseguiu tudo isso, que o reitor do último período administrativo, professor Roberto Frederico Merhy, foi guindado à presidência da Associação Brasileira das Universidades Públicas Estaduais e Municipais, a Abruem, realizando um trabalho de indiscutível eficiência. E foi, no final do segundo mandato de Merhy, que aconteceu o Curso de Medicina, para orgulho da comunidade universitária e para contentamento da comunidade, de um modo geral.

Aí, de repente, surge a notícia de que o governador do Estado fez o anúncio do fechamento do Curso de Medicina. Perplexas, nossas autoridades se entreolham e se indagam sobre a razão, sobre o motivo, sobre a causa de tudo isso, sem que nenhuma delas consiga qualquer explicação. A despeito de todas as dificuldades orçamentárias, não seria o Curso de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa que iria comprometer as finanças do governo do Estado, ainda mais com as alternativas buscadas para diminuir o impacto do custo junto ao Tesouro Estadual.
E nem essas alternativas puderam chegar ao conhecimento do governador, porque ele não quis receber ninguém daqui, porque ele não quer conversar com ninguém daqui.

E todos se recordam que Requião sempre teve, da nossa gente, um tratamento de absoluta cordialidade.


Agredida, a cidade se rebela e promove reação histórica


13 de maio, 2003 – A Associação Comercial e Industrial de Ponta Grossa – ACIPG, pode já ter, antes desta data, reunido as mais diversas personalidades e política local.  Mas é possível também que, até então não tenha recebido, em uma única sala, no mesmo momento, não apenas políticos, mas, a sociedade como um todo, com as divergências, com as diferenças, ideologias, posições e paixões diferentes. Mas, naquele 13 de maio, a ACIPG registrou um fato histórico. Era a reação de uma cidade, superando todas as diferenças por um único objetivo: O Curso de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG, suspenso, no dia anterior, pelo governador Roberto Requião.

Alguns nomes: Jocelito Canto, Plauto Miró Guimarães Filho, Cenir Frare da Cunha, Péricles de Mello, Ricardo Mussi e Delmar Pimentel. Integrantes do Movimento pela Ética e Cidadania, o “MovimentAção”, Douglas Fonseca, Hellenton “Tito” Fonseca, enfim, adversários e mesmo inimigos, mostrando que brigamos aqui, entre irmãos, mas, que não aceitamos que alguém, de foras, se meta em nossas divergências internas. “Eu, contra meu irmão, eu e meu irmão...”, como, no caso, Requião agrediu. E, sem saber, sem querer, uniu um povo. Claro, estamos nos referindo àquela época, àquele momento, quase que único. Vamos, então, a esta parte da história.

Mais de cem pessoas estiveram reunidas naquele dia, políticos, representantes de entidades e movimentos, empresários, entre outras personalidades, para, junto com o reitor da UEPG, Paulo Roberto Godoy, fazer uma avaliação sobre o fechamento do Curso de Medicina. 

O encontro foi comandado pelo presidente da ACIPG, Renato Gomes Nápoli, e sugerido pelo deputado Plauto Filho.

Naquele momento, era criado o “Movimento Pró-Medicina”, que sobreviveria por quase um ano e meio, em se falando de atividades, de reação. Um movimento para unir toda uma sociedade.

Não ouviu
”Não podemos aceitar a forma como ele (o governador) fez, ouvindo apenas um lado, nem aceitarmos o argumento da falta de recursos para Medicina”, protestou o deputado Plauto Miró Guimarães Filho, acrescentando:

“O mesmo governo estadualizou a Faculdade de Bandeirantes, o que custará aos cofres do Estado perto de 6 milhões de reais, dinheiro mais do que suficiente para termos no nosso curso”.

“Um desrespeito à cidade. O governador não tem o direito de fazer o que fez, sem antes ter vindo aqui, conhecido o curso e discutido com a sociedade. Não nos permitiu que tentássemos convencê-lo de que está errado”, reclamou o deputado Jocelito Canto, para quem, “em nenhum momento o governador foi desrespeitado, mas, não soube respeitar”.

O prefeito Péricles de Mello, que apoiou Roberto Requião em 2002, preferiu falar de recursos que foram liberados para a Santa Casa e o Pronto socorro, além de leitos de UTI, casas populares e “Paraná Urbano”. Sobre Medicina, falou que a suspensão foi uma decisão política.

Dizendo não concordar com a atitude do governador, Péricles fez ressalva: “ele tem ajudado muito Ponta Grossa e tenho certeza que continuará ajudando”. Única voz, até então, a destoar do coro geral, pela reação.

Ações
O Movimento Pró-Medicina saiu daquela reunião com uma pauta de ações definida, a começar por uma “Nota Oficial” em nome de todas as entidades nele envolvidas. Também, a realização de um ato público, com previsão de participação de 30 a 50 mil pessoas, no Parque Ambiental. Deveria, ainda, formar uma comitiva de lideranças pára seguir a Brasília e pedir o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Finalmente, a colocação, em lojas da cidade, de motivos em preto, significando o luto da cidade pela perda do curso, além de estimular a população a colocar panos pretos em residências.

Repúdio a Requião
No dia 14 de maio, a Câmara Municipal aprovou Moção de Repúdio ao governador Roberto Requião, de iniciativa do vereador Delmar Pimentel, presidente da Casa. Foi uma longa sessão e, somente após muitas discussões, ao cabo de três horas, o documento foi aprovado por 14 votos contra cinco.

Moção de Repúdio dirigida ao Excelentíssimo Senhor Roberto Requião de Mello e Silva, D.D. governador do Estado do Paraná, pela decisão em suspender o funcionamento do Curso de Medicina, da Universidade Estadual de Ponta Grossa.

A Universidade desempenha com eficiência os propósitos que lhe foram atribuídos quando de sua instalação. A UEPG, calcada em princípios de responsabilidade aos relevantes interesses públicos, especialmente na formação cultural, científica e tecnológica daqueles que freqüentaram, freqüentam ou irão freqüentar seus bancos, em seus 33 anos de existência, preparou inúmeros cidadãos ao concorrido mercado de trabalho, dentre os quais, muitos galgaram Destaques não só em âmbito local, como também estadual e nacional.

Ponta Grossa tem orgulho e a honra de abrigar essa instituição de ensino superior, seja como pólo do maior entroncamento rodoferrovïário do Estado do Paraná, como, também, por ser sua Capital Cívica. Com esses predicados da Universidade e Município, foi possível, após muitos anos de incansável luta, a instalação do Curso de Medicina na UEPG, muito embora, nossa cidade tenha sido sempre preterida por nossos governantes.

A implantação do Curso não foi mera autorização política, mas, precedeu sim, de estudos sérios e responsáveis para que fosse possível o desenvolvimento de suas atividades regulares, de natureza econômico-financeira, como também por uma avaliação especialmente do Corpo Docente.

Foram realizados os vestibulares, que transcorreram de forma absolutamente tranqüila, o mesmo ocorrendo com o início do período letivo, além da realização de diversas obras, algumas concluídas e outras em andamento, buscando uma perfeita adequação com as necessidades exigidas. A título de comentário, cidades importantes do Estado, semelhantes à nossa, já desfrutam do Curso de Medicina, como é o caso de Londrina, Cascavel e Maringá.

Estranhamente, a Associação Médica do Paraná, que outrora não se manifestara com respeito à instalação do Curso de Medicina em Ponta Grossa, houve por bem, investir contra o mesmo, frise- se, após o ano letivo já estar em andamento. O vice-presidente da Associação Médica do Brasil, Ronaldo da Rocha Loures Bueno, defendeu o fechamento do Curso de Medicina na Universidade Estadual de Ponta Grossa, dizendo que ‘o Paraná já tem cursos de Medicina em excesso e não há necessidade de criação de novos cursos’. A princípio, a interpretação mais correta para este argumento, é a defesa de reserva de mercado; apenas isso, não havendo nenhuma preocupação em defender o bem estar da população, como é o caso da Saúde e da Educação, haja visto que, hoje, é presenciado por todos, especialmente na Região dos Campos Gerais, a população é precariamente transportada de um lado para outro, até mesmo à Capital do Estado, em busca de tratamento médico- hospitalar, pela falta de profissionais.

Ponta Grossa, que sempre foi preterida em ações governamentais concretas (...), houve por bem, em depositar, mais uma vez, um voto de confiança ao então candidato ao governo do Estado, Roberto Requião, nas eleições recentes, na esperança de que o mesmo jamais trairia a confiança não só de Ponta Grossa como, também da Região dos Campos Gerais.

Todavia, não foi o que aconteceu. (...) O senhor governador resolveu, unilateralmente, deter minar a suspensão do Curso de Medicina da Universidade Esta dual de Ponta Grossa. Essa decisão do senhor governador é inaceitável, pois foi tomada sem ao menos ouvir as instituições de nossa cidade, como, por exemplo, a Associação Médica de Ponta Grossa e a própria Universidade, as quais foram deixadas as margens do processo, sendo dada guarida apenas a opiniões isoladas de pessoas alheias aos nossos interesses, motivadas por objetivos até agora inexplicáveis.

O fechamento do Curso de Medicina sepultará de vez os anseios da coletividade dos Campos Gerais, que poderia sonhar com resultados práticos na consolidação de idéias de vivermos dias futuros mais promissores na área da Saúde. Ora, quando se fala em saúde pública, o lucro não deverá ser a busca mais atraente, e sim, o que for socialmente mais necessário. Assim, a decisão do senhor governador faz com que, não só a Universidade Estadual de Ponta Grossa e a Região dos Campos Gerais percam esta conquista, como também o Estado do Paraná, que perde, tendo em vista, que não mais teremos um dos importantes instrumentos de implementação de bem-estar público.

Votaram contra a Moção de Repúdio ao governador Roberto Requião, os vereadores Gualter Maurício de Andrade, Gerveson Silveira, Pascoal Adura, Rogério de Paula Quadros e José Luiz Teixeira. Ausente daquela sessão João Barbiero, e, da votação, Messias Carneiro de Moraes.

Surge Fuad
A partir daquele dia, a cidade passou a conhecer e a falar de um promotor de Justiça (dos direitos e Garantias Individuais): Fuad Chafic Faraj. Ele esteve na reunião de lideranças e contestou todos os argumentos do governador Requião. Entusiasmou os presentes e entusiasmou a comunidade. Seus argumentos pareciam incontestáveis. Esteve em visita ao reitor Paulo Godoy e verificou “in loco” que "as acusações sobre falta de estrutura do curso são infiéis”, garantiu.


Orgulho
No dia 14 de maio, um fato marcante: A reação chegou às ruas, com acadêmicos de Medicina adesivando carros. “Medicina UEPG: Orgulho dos Campos Gerais”, era o apelo. Foi o primeiro adesivo, muitos outros viriam e milhares de carros levavam a mensagem, “infestado” a cidade. Também em vidros de muitas residências a manifestação era vista. Era o povo aderindo, participando, querendo protestar. E, diariamente, estava reunido o Movimento Pró-Medicina.

Na Justiça
O promotor Fuad Faraj, após a visita que fez à Universidade, onde solicitou toda a documentação referente ao Curso de Medicina, anunciou que estaria impetrando uma Ação Civil Pública no sentido de declarar a nulidade do decreto assinado pelo governador. O que, de fato, fez.


Frente-a-frente

O decreto de Requião determinava que os acadêmicos de Medicina da UEPG solicitassem, em conjunto, transferência para outras universidades, para a continuidade do curso. Um documento foi elaborado e o “prato feito” foi trazido, no dia 16 de maio, pelo coordenador de Ensino Superior, Antônio José Camargo, e pela procuradora-geral do Estado, Josélia Nogueira Broliane. Os alunos se negaram a assinar o tal documento. Além disto, unidos a acadêmicos de outros cursos, tentaram impedir a entrada, no Campus, da comitiva do governo. O protesto continuou em reunião com os alunos, pais, professores e integrantes do Movimento Pró Medicina. Houve tumulto, bate-boca e troca de ameaças. Todos queriam explicações do governo.

De preto
No dia 17, acadêmicos de Medicina, apoiados por colegas outros cursos saíram às ruas, vestidos de preto e com adesivos nas camisetas, e se instalaram no Calçadão da Rua Cel. Cláudio, colhendo assinaturas da população. O abaixo-assinado seria entregue ao governador. Em um dia, apenas conseguiram mais de cinco mil assinaturas.

 


O povo toma conta das ruas, e
Ponta Grossa "invade" a Capital

Governo fecha a porta na cara da Princesa

Como prometera, o promotor Fuad Faraj elaborou uma Ação Civil Pública como objetivo de anular o decreto do governador Roberto Requião, que suspendeu o Curso de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Elaborou e protocolou no Fórum, no dia 19 de maio de 2003. Mas, não o fez sozinho. Cerca de duas mil pessoas o acompanharam. O Movimento Pró-Medicina organizou para aquele dia uma caminhada em apoio ao promotor. Logo pela manhã, começou a concentração em frente à “Casa da Cidadania”, sede do Ministério Público, coincidentemente, ao lado do prédio central da UEPG. Lá estavam várias lideranças políticas e da sociedade, dirigentes de diversas entidades, acadêmicos e populares.

A caminhada chegou à Rua Balduíno Taques, Avenida Vicente Machado, Benjamin Constant, Silva Jardim e Leopoldo Guimarães da Cunha, ate a porta do Fórum, onde houve manifestação. Um carro de som e a transmissão direta pelo rádio, feita pelo deputado Jocelito Canto, estimulou a comunidade e, assim, conforme o movimento avançava, a população ia aderindo. Nas lojas, muitas delas a “meia-porta” e com faixas pretas, em sinal de luto, comerciantes e comerciários aplaudiam a iniciativa, bem como muitas famílias nas janelas de prédios residenciais, e trabalhadores, nos edifícios comerciais.

Era o apoio que Fuad precisava para mostrar que a cidade não aceitou a decisão do governador. Ponta Grossa se orgulhou de sua gente. A “Princesa” viu seu povo defendendo sua dignidade, sua altivez, sua honra. A sorte estava lançada!

Depois de protocolar a Ação Civil Pública, "vestindo" a Bandeira de Ponta Grossa, o promotor Fuad Farad, ao lado do povo, defendeu o Curso de Medicina

Sensibilidade?
Enquanto isto, o deputado Jocelito Canto, depois da caminhada, comentava: “Valeu a pena, pela participação de estudantes, jovens, lideranças e populares, que mostraram a união e a força da nossa cidade”. Ele jogou mais uma cartada, apelando para a “sensibilidade” do governador Roberto Requião, como resultado daquela gigantesca manifestação.

Requião prometeu
Jocelito colocou em xeque a palavra do governador, ao lembrar que Roberto Requião, em entrevista que lhe concedeu, no rádio, havia assumido o compromisso de manter o Curso de Medicina. “Ele prometeu, de público, que manteria o curso; então, espero que ele retorne à cidade, agora, como governador, para resgatar esse compromisso”, apelou o deputado. Na Assembléia Legislativa, Jocelito, em discurso, cobrou o cumprimento da promessa do governador. E, mais do que isto, apresentou ao Plenário a gravação da promessa feita.

Argumentou o deputado que o curso tinha professores qualificados e que a demanda foi satisfatória (173 candidatos por vaga no vestibular). Portanto, não havia porque Requião não cumprir com a promessa feita. Jocelito aprovou uma Moção de Apelo ao governador.

Duas frentes
De sua parte, o deputado Plauto Miró Guimarães Filho também se mantinha esperançoso. Entendia que a luta por Medicina conquistara duas frentes importantes: A ação na Justiça e a mobilização popular. “A população demonstrou que não aceita a atitude do governador e está fazendo valer a sua vontade”, declarou. Entusiasmado com o resultado da manifestação e com a disposição do promotor Fuad Faraj, o Movimento Pró-Medicina abria outra frente: Preparava uma manifestação, também volumosa, para Curitiba, junto à Assembléia Legislativa e ao Palácio Iguaçu.

Em Brasília
E o prefeito Péricles de Mello, demonstrando já não acreditar na boa vontade do “companheiro” Roberto Requião, procurava alternativas. A idéia, dada pelo reitor Paulo Roberto Godoy (foto) era que, conquistando recursos federais para o Pronto Socorro e o Hospital da Criança, que serviriam de “hospital universitário”, o Curso de Medicina poderia ser mantido.

Reagiu
O Palácio Iguaçu não se calou diante da grande manifestação havida em Ponta Grossa, da reação de acadêmicos de Medicina, pais de alunos e lideranças, no enfrentamento a representantes do governo, nem diante da ousadia do promotor Fuad Faraj. O governador pediu o afastamento do promotor, acusando-o de ter incitado à “baderna”. O promotor ainda é promotor, e continua em Ponta Grossa. E já afrontou outras vezes o governador Roberto Requião.

Apelo
Mesmo perdendo alguns membros pelo caminho, o Movimento Pró-Medicina avançava em suas reuniões, traçando estratégias de ações. E, na Assembléia Legislativa, o deputado Jocelito Canto conseguiu aprovar, por unanimidade, uma Moção de Apelo ao governador, pela manutenção do Curso de Medicina da UEPG. A moção foi assinada por 43 deputados. Isto aconteceu no dia 21 de maio.

“Invadindo a Capital”
No dia 22, Ponta Grossa surpreendeu a Capital do Estado. Perto de mil pessoas “invadiram” Curitiba em um enorme comboio, formado por 15 ônibus e dezenas de carros particulares. Curiosamente, dos 40 acadêmicos de Medicina, apenas duas alunas lá estiveram, e ninguém foi representar oficialmente a UEPG. Era mais uma ação do Pró-Medicina, liderada pelos deputados Plauto Miró Guimarães Filho e Jocelito Canto. A caravana chegou às 15 horas e uma comitiva, munida de faixas e cartazes, seguiu à Assembléia Legislativa, para manifestar o descontentamento com o ato do governador.

Isto entusiasmou ainda mais os deputados ponta-grossenses que, ao lado do povo, tomaram conta daquela sessão legislativa. Plauto e Jocelito fizeram discursos entusiasmados, levando vários outros deputados a também se manifestarem em favor de Ponta Grossa.

Decreto
Os deputados, além de deixarem claro que o governador Requião foi injusto para com a cidade, especialmente por não ter discutido o assunto com a sociedade local, nem com a própria Universidade, preferindo a atitude unilateral de fechar o Curso de Medicina, encaminharam um Decreto-Legislativo, pedindo o cancelamento do ato do governador.

Ao Palácio
Terminada a calorosa manifestação na Assembléia, Jocelito e Plauto lideraram uma caminhada até a frente do palácio Iguaçu. Lá, um caminhão de som os esperava, bem como às demais lideranças que participavam do movimento. Além dos deputados, várias lideranças se pronunciaram, dirigindo seus discursos ao governador Roberto Requião, chamando a atenção das milhares de pessoas que passavam pelo local, pois tratava-se da primeira grande manifestação contra o governo, no quarto mês de gestão.

Porta na cara e mentira
De parte da cidade, a caminhada ao Fórum e a manifestação em Curitiba podem ser consideradas como as marcas principais da reação de um povo pacífico, mas, que sabe defender seus direitos. De parte do governo, além do decreto que suspendeu o Curso de Medicina, seguramente uma outra atitude simbolizou a arrogância do governante, a desconsideração e o desrespeito para com a Cidade de Ponta Grossa. Governo da mentira!. Foi quando, naquele dia, os deputados Plauto Miró Guimarães Filho e Jocelito Canto, se dirigiram ao Palácio Iguaçu, com o objetivo de conversar com o chefe da Casa Civil, Caíto Quintana, que, aliás, mandou avisar que receberia uma comitiva de ponta-grossenses, ou que recepcionaria as lideranças no saguão de entrada do Palácio. Mentiu!

Quando Ponta Grossa chegou em frente à porta principal do Palácio, veio a informação de que Caíto não receberia as lideranças.

Pior do que isto, quando os legítimos representantes da cidade, eleitos pelo povo, Jocelito e Plauto, dentro do horário de expediente, tentaram adentrar ao Palácio, que é do povo de todos os paranaenses, as duas enormes portas foram fechadas “na cara” dos deputados. Outro “tapa na cara da Princesa dos Campos Gerais”.

Outra mentira
Após este ocorrido, Plauto e Jocelito, acompanhados de algumas lideranças e das duas acadêmicas, se dirigiram ao Protocolo do Palácio, por outra porta, e conseguiram protocolar um abaixo-assinado com mais de 20 mil assinaturas, pedindo a seqüência do Curso de Medicina, o mesmo documento que Caíto não quis receber.

 Não vendo outra saída, pela repercussão negativa para o governo, de sua própria atitude, o chefe da Casa Civil de Requião resolveu, finalmente, receber uma reduzida comitiva, que pude explicar a situação do curso, e pediu uma audiência com o governador. Caíto Quintana, então, assumiu o compromisso de agendar tal audiência, acomodando os ânimos. Mentiu de novo! A audiência jamais foi agendada.


 

Requião vem a Vila Velha, mas, de
helicóptero; Péricles sai pelos fundos

Uma esperança surgiu, quando o juiz Luiz Henrique de Miranda (foto), da 1ª Vara Cível) concedeu liminar pedida pelo Ministério Público, e suspendeu o decreto do governador Roberto Requião, determinando, assim, a imediata retomadas das aulas do Curso de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa, ao mesmo tempo em que cancelou resolução que tratava da transferência dos acadêmicos.

O promotor Fuad Faraj comemorou o fato, e disse que era o primeiro passo “para que se firme o Curso de Medicina”. Não era para tanto! O governo, afinal, anunciava que iria recorrer da decisão.

Fuad estava contente, também, porque recebeu Moção de Aplauso da Câmara Municipal e para ele, foi proposto o título de Cidadão Honorário de Ponta Grossa. No dia 27 de maio, os acadêmicos de Medicina retornavam à aulas.

Liminar é apenas liminar. Assim, a luta não parou ao sabor de uma vitória. Outras batalhas viriam. Precavido, o reitor Paulo Roberto Godoy levou diversas lideranças da sociedade para conhecer as instalações de Medicina e do conjunto das áreas de Ciências e Saúde.

Deu em nada
Certos estavam aqueles que não apostaram todas as fichas na decisão do juiz. Dois dias depois de concedida a liminar, esta era cassada pelo Tribunal de Justiça do Estado, pela caneta do desembargador José Antônio Vidal Coelho, vice-presidente do órgão. Com semblante devidamente envernizado, o governador Roberto Requião, no mesmo dia, anunciava sua primeira visita a Ponta Grossa depois de ter decretado o fim de Medicina da UEPG. Seria uma rápida visita. Ele viria de helicóptero e desceria diretamente em Vila Velha, para uma reunião de trabalho sobre a reabertura do parque. Sabendo disto, o Movimento Pró-Medicina preparou uma “recepção” ao governador. A idéia era providenciar ônibus para levar manifestantes, exibir faixas e até mesmo contratar um avião para mostrar, lá de cima, outra faixa. Àquela visita, o Palácio Iguaçu determinou que nem mesmo a imprensa local teria acesso.

Pelos fundos
Mesmo assim, lá estavam os manifestantes, mais de 50, na entrada do parque, onde policiais militares e rodoviários protegiam a entrada, auxiliados por uma cancela. Por volta de 10:30 horas, os manifestantes exibiam faixas a um helicóptero que sobrevoava o parque. Em seguida, se dirigiam ao trevo de acesso e fecharam, alternadamente, as duas pistas da rodovia, provocando filas de veículos. A manifestação foi acompanhada, por uma equipe atenta, mas, bastante educada, da Policia Rodoviária.

Ao meio dia e meia, os manifestantes desistiram de esperar pelo retorno do helicóptero, vendo apenas algumas autoridades. Soube-se que o prefeito Péricles de Mello, que participou da reunião, preferiu sair “pelos fundos”, saindo por Furnas. Soube-se, também, que Roberto Requião e sua comitiva, bem como o prefeito Péricles, tomaram café na residência de Jorge Rosas Demiate (então presidente da Paraná Turismo – hoje já falecido). E que, lá, todos conversaram, alegremente.


 

Na Assembléia, governistas ouvem
reitor, mas derrotam Medicina

No dia 2 de junho de 2003, aconteceu uma sessão bastante tumultuada na Assembléia Legislativa. Como estava programado, lá estava o reitor Paulo Roberto Godoy, para fazer uma exposição sobre o Curso de Medicina a UEPG. A apoiá-lo, cerca de 150 pessoas, entre populares, lideranças e autoridades locais. Além, é claro, dos deputados Plauto Miró Guimarães Filho e Jocelito Canto. Godoy, de fato, fez uma excelente explanação, mostrando realidade do curso, que, expôs, tinha todas as condições de funcionar normalmente, sem problemas. Até porque, além da estrutura existente, o prefeito Péricles de Mello havia oferecido parceria, pela qual Hospital da Criança e Pronto Socorro fariam as vezes do Hospital Universitário. E o presidente da Câmara Municipal, Delmar Pimentel, ofereceu certa de 1,5 milhão de reais, “sobras” do Orçamento do Legislativo.

Derrota
Só que o reitor gastou “saliva” e tempo. A estratégia de Jocelito e Plauto não funcionou. Eles aproveitaram a presença de Godoy e da massa ponta-grossense e “encaixaram” na pauta o Decreto Legislativo proposto por Plauto, que tiraria o efeito do decreto de Requião, que suspendeu Medicina. Pediram Regime de Urgência. Foi quando Ponta Grossa sentiu que, através da Assembléia, não teria de volta o curso. A urgência foi derrotada pela maioria governista, por 29 a 17. Entre os que votaram contra Medicina, estava o deputado “Delegado Bradock” (foto) e o líder do governo Ângelo Vanhoni.

Naquele mesmo dia, Jocelito Canto anunciou a apresentação de um requerimento, no qual solicitava a suspensão da estadualização da Faculdade de Bandeirantes. Essa sua manifestação contra o privilégio dado pelo governo, lhe rendeu, dias depois, uma Moção de Repúdio, pela Câmara Municipal daquela cidade. Depois, transformou o requerimento em projeto de lei, cuja urgência foi negada pela bancada governista,e ficou "por isso mesmo".

Na Justiça
Além das ações movidas pelo promotor Fuad Faraj, outras foram providenciadas, evidentemente, mas, sem sucesso. Uma delas, que ganhou o apoio do Movimento Pró-Medicina, foi de iniciativa do advogado Josué Correa Fernandes, que foi secretário municipal de Administração e Negócios Jurídicos. Ele não conseguiu seu objetivo jurídico. Sua iniciativa se somo a outras. Por exemplo, dos clubes de Lions da cidade, que, em reunião, decidiram se unir ao Movimento Pró-Medicina, em apoio pela voltado curso da UEPG. Também, as declarações do presidente da Associação Médica de Ponta Grossa, Francisco Barros (foto), ssegundo o qual o governador Roberto Requião “usou as entidades médicas para suspender Medicina da UEPG”, e que “onde tem um dedo do ex-governador Jaime Lerner, tem um pé do governo atual”, e do promotor Faraj, para quem “a vontade do povo resgatará Medicina”.



O Movimento Pró-Medicina, diante de varias derrotas na busca da reabertura do Curso de Medicina da UEPG, começou, no dia 12 junho, a colocar em prática a decisão tomada em reunião, dias antes, de promover uma manifestação a cada dia 12, para manter viva na memória da população de Ponta Grossa e dos Campos Gerais, a atitude do governador Roberto Requião, no decreto que assinou em maio, suspendendo o curso e prejudicando os 40 acadêmicos, os pais dos alunos, e, principalmente, a população ponta-grossense, que teria, em pouco tempo, os benefícios, na melhoria do atendimento à Saúde. Isto ocorreria, segundo o reitor Paulo Roberto Godoy, já no primeiro ano do curso, através do Programa Saúde da Família, com os futuros médicos atuando, sob orientação dos mestres, no Pronto Socorro, Hospital da Criança, postos de saúde e mesmo em residências.

E assim, aconteceu, pelo menos até que o movimento completou seu primeiro ano, em maio de 2004. Depois, o movimento enfraqueceu, mas, por falta de entusiasmo das entidades que dele fizeram parte, no início da reação.

Primeiro mês
Cerca de cem pessoas estiveram, naquele 12 de junho, coincidentemente Dia dos Namorados, participando de um ato do Pró Medicina no Trevo Vendrami, fechando o tráfego de veículos onde se encontram a BR-376 e a PR-151. Mais uma manifestação organizada, de respeito aos motoristas, que foi realizada de forma alternada, ora interrompendo o tráfego em uma rodovia, ora, em outra, 15 minutos cada. Esse respeito motivou a solidariedade e mesmo a adesão dos motoristas.

E não foi apenas pelas manifestações através de aplausos, buzinas e acenos. Até mesmo com alguns acompanhantes de motoristas auxiliando na distribuição de panfletos e rosas. Sim, o movimento teve o cuidado de distribuir milhares de rosas, pelo Dia dos Namorados. Sinal evidente que o que fez o governador Roberto Requião contra Ponta Grossa e região, ganhou repercussão em todo o Estado, e mesmo fora dele.

Segundo mês
Em 12 de julho, o Movimento Pró-Medicina realizou nova manifestação, desta vez exibindo faixas na Avenida Vicente Machado, na “esquina do Correio”, a mais movimentada da cidade. Outra manifestação pacífica e ordeira. Mas, com frases mais agressivas, como “Requião, construa, não destrua” e “Requião, loucura tem cura”. Isto demonstrava que já não existia muita esperança de ver reaberto o Curso de Medicina da UEPG, mas, a vontade de mostrar a insatisfação e a revolta pela atitude do governador. E, não apenas a de ter fechado o curso, mas, também, pelas declarações ofensivas que ele vinha dando, sempre que alguém tocava no assunto. O desrespeito para com a cidade foi além do decreto.

E Ponta Grossa, e os Campos Gerais ficaram seu o Curso de Medicina, tendo que engolir em seco o desaforo, a arrogância e a prepotência do governador. Não tão em seco, assim, porque o troco viria, mais tarde. A cidade finalmente calou-se, daquela época, ante o poderio de quem tem a máquina administrativa nas mãos, a caneta entre os dedos, ainda cheia. E todo aquilo que esse poder pode representar em termos de influência, de mando.


O troco
Ponta Grossa deixou de gostar de Roberto Requião. E deixo claro isto nas eleições que se sucederam àquele “tapa na cara da Princesa”.

Em 2004, Requião apoiou seu amigo pessoal, Péricles de Holleben Mello (PT) à Prefeitura de Ponta Grossa. Ele perdeu a eleição, aqui, para Pedro Wosgrau Filho (PSDB). O petista, no primeiro turno, fez 68.117 votos, concorrendo à reeleição, enquanto o candidato tucano atingiu os 74.483 votos. No segundo turno, Wosgrau bateu Péricles por 87.291 a 81.296.

Alguns detalhes dessa eleição: Péricles obteve, claro, os votos de muitos que não votaram em Wosgrau, ou seja, da rejeição ao candidato, e da comunidade petista. E contou com o apoio, no segundo turno, do deputado e ex-prefeito Jocelito Canto, de grande potencial de votos, que apoiou o petista a pedido de Requião, porque via que seu próprio apoio pouco significava, naquela eleição em Ponta Grossa.

Em 2006, Roberto Requião disputou o governo estadual e venceu o senador Osmar Dias... no Paraná. Mas, em Ponta Grossa, a história foi diferente. No 1º turno, Requião perdeu para Osmar de 71.885 a 50.570. No 2º turno,a derrota de Requião,  em Ponta Grossa, foi de 97.511votos a 59.293 votos.

Mas, em 2008, apoiando agora Wosgrau Filho (candidato à reeleição), no segundo turno, apenas, Roberto Requião viu seu candidato vencer Sandro Alex por 89.538 votos a 81.782. Poucos duvidam, entretanto, que a vitória de Wosgrau se deu, não pelo apoio do governador, que prometeu “asfaltar toda a cidade”, mas, não cumpriu, e sim pelos próprios méritos do candidato.

Rejeitado
Em 2007, o então vereador Francisco Valentim Filho (foto), o “Baixinho”, propôs o título de Cidadão Honorário de Ponta Grossa ao governador Roberto Requião. Uma infeliz iniciativa! Tanto que, em dezembro daquele mesmo ano, o próprio Baixinho retirou a proposta. Ocorre que o projeto carecia de pelo menos 10 votos para sua aprovação. Mas, dos 15 vereadores, 76 já haviam garantido voto contrário, porque sabiam que o povo ponta-grossense não ficaria nada satisfeito em homenagear o homem que agrediu a cidade, fechando o Curso de Medicina da UEPG. Foi uma "rejeição" sem votação.

Baixinho não foi o primeiro. Muito antes, Delmar Pimentel, o mais crítico dos vereadores a Requião, checou a rascunhar um projeto nesse sentido. Mas, foi alertado a não cometer tal ato, e arquivou a idéia. Era evidente que Roberto Requião passaria vergonha. Como passaria anos depois.

Em 2008, foi a vez de George Luiz de Oliveira propor o título a Requião. Desta vez, a matéria foi aprovada. E, em 2010, o governador esteve na Câmara Municipal para receber a honraria.

Nem o PMDB
Nem mesmo o seu partido, o PMDB, conseguiu sensibilizar a população. Nem mesmo sensibilizar os próprios peemedebistas se entusiasmaram com a homenagem ao seu líder maior no Paraná. Afinal, os peemedebistas de Ponta Grossa são ponta-grossenses, e a maioria tem brio, tem orgulho e amor à cidade.

No dia 24 de fevereiro de 2010, aqui esteve Roberto Requião para finalmente receber o Título de Cidadão Honorário de Ponta Grossa. E passou vergonha. Nunca antes, quando da entrega de honrarias, a Câmara Municipal recebeu um púbico tão pequeno: menos de uma centena de pessoas, valendo lembrar que o PMDB local conta com mais de 15 mil filiados.

Requião não pode esconder o desconforto e a irritação no momento do discurso. Ele já havia dado uma bronca nas lideranças locais do PMDB pela falta de público para aquele seu momento de ‘glória’ em Ponta Grossa. Foi merecido, sem dúvida.


Hospital Regional
Essa antipatia da maioria do povo ponta-grossense a Roberto Requião não se apagaria, mesmo com as tentativas de reaproximação. Ou de aproximação. Inegável que, em diversas oportunidades o governador, cumprindo com sua obrigação, destinou importantes recursos, obras e programas a Ponta Grossa, que, final, mesmo lhe impondo derrotas, lhe com cedeu votos suficientes para que se elegesse e se mantivesse no poder.

Mas, é o Curso de Medicina da UEPG? E essa marca do descaso, do desrespeito? Como pedir perdão pelo chamado “tapa na cara”?

O governador buscou caminhos. O principal deles, a construção do Hospital Regional de Ponta Grossa.

Voltemos ao ano de 2005. Reeleito prefeito de Ponta Grossa, Pedro Wosgrau Filho buscou a necessária aproximação com o governo do Estado. E isto aconteceu dias após sua posse. Foi no dia 10 de janeiro daquele ano.

Em Curitiba, acompanhado de seu secretario de Saúde, Alberto Olavo de Carvalho, o “Tim”, estava Pedro Wosgrau na companhia do deputado Jocelito Canto, então bastante ligado a Roberto Requião. Ligação que permitiu a Canto ligar para o governador e pedir um encontro, que ocorreu logo em seguida, na Granja Canguiri, residência oficial do governador. Lá, uma conversa reservada, na qual Requião prometeu a Pedro, Jocelito e Carvalho, que Ponta Grossa teria um hospital regional. Nunca se soube se na mesma conversa se falou em curso de Medicina, até como estratégia política. Canto e Wosgrau cumpririam o pedido do governador de nada revelar sobre o assunto, pois Requião gostaria de fazer o anúncio em alguma oportunidade especial.

Primeiro anúncio
Mas, o próprio Requião ao se conteve e, no finalzinho de janeiro, quando concedia uma entrevista ao programa de rádio de Jocelito Canto, revelou a intenção de seu governo de construir o Hospital Regional de Ponta Grossa. Canto e Wosgrau então, contaram parte do teor da conversa daquele dia 10.

Oficial
Em junho de 2006, durante a inauguração do Hospital São Camilo, Roberto Requião anunciava, oficialmente, a construção do Hospital Regional, com investimento inicial de 5 milhões de reais, naquele ano, e que chegariam, ao final, a 25 milhões, que, na verdade, ultrapassaram os 30 milhões de reais.

De novo, Medicina
O ano, agora, é 2008. O mês é junho, dia 16. O Palco, o Plenário da Assembléia Legislativa. Na tribuna, o deputado Jocelito Canto anunciava o retorno do Curso de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa.

E o fez após um almoço que teve, no Palácio Iguaçu, com o governador Roberto Requião e o então ministro da Saúde, José Gomes Temporão. Lá estava, também, entre várias outras pessoas, autoridades, a secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior Lygia Pupatto, e, estrategicamente, o reitor da UEPG, João Carlos Gomes. Estrategicamente, porque Jocelito o colocou naquele local.

João Carlos teve a oportunidade de apresentar um completo estudo sobra viabilidade de funcionamento do Curso de Medicina, desativado em 2003. Foi quando, na presença do ministro, o governador determinou à secretária que, imediatamente, tomasse todas as providências para a reabertura do curso em Ponta Grossa, e que fizesse todo o possível para que Medicina tivesse vestibular ainda no final daquele ano.

O estudo apresentado pelo reitor teve como embasamento estudo feito por uma comissão designada para tal. Temporão declarou apoio à iniciativa.

Em seu discurso na Assembléia, Jocelito Canto comentou que, com a autorização para a volta do Curso de Medicina, “cai o último pecado do governador Requião, em relação a Ponta Grossa”.

Evidentemente, e história conta isso, o “pecado” não “caiu”. Tanto que o anúncio da volta do curso jamais repercutiu tanto quanto o “tapa na cara”, a suspensão de Medicina.

Irreversível
No dia 18 de junho, quando da inauguração da nova Estação Rodoviária de Ponta Grossa, o governador Requião confirmou o anúncio feito por Jocelito, dizendo, primeiro, que o Hospital Regional seria inaugurado até o final daquele ano. O HR Fo construído no Campus de Universidade Estadual  de Ponta Grossa, justamente pela possibilidade de servir como Hospital Universitário para eventual retorno do Curso de Medicina.

O prefeito Pedro Wosgrau Filho chegou a criar uma comissão especial para definir o local, e tal comissão escolheu uma área próxima ao antigo Cefet. No entanto, o deputdo Jocelito Canto insistiu com a idéia do Campus, no que foi acompanhado por Requião. E assim se fez.

No seu discurso, na inauguração da Rodoviária, o governador declarou que, com o hospital, estavam dadas as condições para instalação da Faculdade de Medicina.

“Teremos a melhor faculdade de Medicina do Paraná, que será uma instituição séria e não uma obra qualquer de véspera de eleição”, disse durante a inauguração da nova rodoviária. Requião revelou que uma proposta para a abertura da faculdade, que ele considera “absolutamente irreversível”, estava sendo analisada pela Secretaria de Ensino Superior, Ciência e Tecnologia. “Não deve demorar muito”, disse.

Inauguração
Em sua última inauguração antes de deixar o cargo, o governador Roberto Requião entregou, no dia 31 de março de 2010, o Hospital Regional de Ponta Grossa, estando entre os maiores e mais equipados entre as 44 unidades hospitalares que foram construídas ou ampliadas pelo governo do Paraná nos últimos anos. Talvez o hospital com maior número de promessas por parte de um governo. E inaugurado em ano eleitoral.

Era anunciado que, quando estivesse em em pleno atendimento, “dentro de seis meses”, o hospital teria 150 leitos, 36 Unidades de Terapia Intensiva, sendo 28 UTIs para adultos e 8 UTIs neo natal. A capacidade de atendimento será em torno de 500 pacientes por dia.

Os meses se passaram, também os anos, e o Hospital Regional de Ponta Grossa, pelo menos até o início de 2013 não conheceu essa capacidade de atendimento. Requião deixou a responsabilidade de fazer funcionar sua obra para o sucessor Beto Richa.

A volta de Medicina à UEPG
Finalmente, no dia 20 de julho de 2009, a Universidade Estadual de Ponta Grossa voltou a ter seu Curso de Medicina. Naquele dia, o reitor João Carlos Gomes, abria as atividades do curso com a recepção dos alunos que compunham a primeira turma. Ao apresentar aos estudantes e professores dados sobre infraestrutura, divisão administrativa, corpo de funcionários e investimentos nos últimos anos, João Carlos ressaltou o significado histórico da implantação do curso:

“No ano em que a universidade completa seus 40 anos, o curso de Medicina vem coroar todo um esforço, tanto do governo estadual quanto dos nossos professores, para fazer com que a UEPG desponte com mais um curso de excelência entre suas opções de graduação”, disse o reitor.

Ao falar aos alunos e professores do curso, João Carlos Gomes relembrou a luta pela implantação do curso, que remonta à criação da própria UEPG, instituição a qual estava incorporada a Faculdade de Ciências Médicas, em 1969.

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