História de Vidas


A cobra, os sapos e os coelhos: Uma história de vidas

Texto Luiz Carlos Castilho
Fotos: Acervo da família


Um homem que criava sapos, em casa, para alimentar seus filhos. Um homem que, propositadamente, enlouquecia coelhos, e que espetava a barriga das pessoas, inclusive dos próprios filhos e filhas. E que, para isto, contava com a ajuda da esposa. Pois é este homem e esta mulher que estamos homenageando para perpetuar suas memórias. É que os julgamos merecedores da admiração de todos nós e da população ponta-grossense.

Valdivino Ávila de Castilho nasceu na cidade de Ipiranga, no dia 23 de janeiro de 1918. Viveu sua infância, naquele município, na pequena localidade de Santaria. Foi um dos dez filhos do casal José Antônio e Avelina Ávila de Castilho. Pessoas muito simples, que viviam da roça, do cabo da enxada, sob o sol, mas, que sabiam que, para criar os filhos, todo sacrifício valia a pena.

Como toda criança do interior, do mato, Valdivino e seus irmãos ajudavam os pais no trabalho. E tinham seus momentos de alegria, brincavam, se divertiam, fazendo a vida pobre que levavam se tornar menos difícil.

Avelina e José, como podiam, não deixavam faltar o alimento, fruto de muito suor, de uma labuta incansável. E, também como podiam, e sabiam, educavam os meninos. Ensinavam que o trabalho dignifica, engrandece, e que a honestidade é o patrimônio mais importante que se pode construir.

Crianças foram crescendo, outras crianças nascendo e sendo orientadas para a vida. Vida simples, humilde e digna. Foi num tempo em que não havia ajuda dos governos, em que cada um tinha que se virar para sobreviver. E isto, José e Avelina sabiam muito bem fazer, e transmitir esse conhecimento aos filhos. De crianças arteiras, mas trabalhadoras, aos poucos foram se tornando adolescentes, jovens.

Os pais orientavam e educavam de acordo com o coração e a necessidade. E havia respeito e muito amor entre pais e filhos. Os pais sabiam porquê aplicavam os corretivos, e os filhos, mesmo os pequenos, sabiam porque levavam as palmadas, ou mesmo, ouviam cantar, e no corpo sentiam o efeito de uma boa cinta, de puro couro.

Valdivino, bem como seus irmãos, também cresceu. Mãos calejadas desde menino, seguia sua vida, ora na roça, ora ouvindo as histórias do pai. Namorava, se divertia, gostava dos bailes e não reclamava da vida pobre que levava. Mas, diferente dos irmãos, tinha uma incrível história para construir. Nem ele, nem seus pais, imaginavam como seriam escritas as páginas dessa história.

Um dia, no trabalho árduo da roça, ou, quem sabe, voltando para casa, quem sabe armando alguma arapuca para caçar passarinho, o fato é que o jovem Valdivino foi surpreendido por uma cobra venenosa, uma urutu cruzeiro, que, sem piedade, lhe picou o peito do pé direito. Dia que mudou completamente a sua vida, que traçou o seu destino pelas linhas tortas com que Deus sabe escrever.

A falta de recursos da época, na sua cidade natal, levou seus pais a procurar diferentes formas de cura para o menino. Isto apenas agravou sua situação. Na idade de servir a Pátria, veio para Ponta Grossa. Conheceu pessoas, fez novas amizades, levando sempre a conseqüência daquela picada de urutu, que não permitiu seu ingresso no Exército. Em Ponta Grossa, foi encaminhado à Santa Casa de Misericórdia, na busca de um tratamento.

Quando dispensado do quartel, Valdivino de Castilho foi levado à Santa Casa, para tratamento de sua ferida, provocada pela picada da cobra. Ficou internado em uma enfermaria, mesmo local, depois transformado em necrotério, e, onde, hoje, são atendidas as pessoas que se valem do Sistema Único de Saúde – SUS, na Rua Barão do Cerro Azul. Na época o atendimento era dado aos chamados “indigentes”.

Com seu jeito simples, seu carisma de rapaz do campo, foi conquistando a amizade de enfermeiros, das freiras que trabalhavam no hospital, dos médicos, da comunidade da Santa Casa, então uma verdadeira família

Na Santa Casa, fazia de tudo um pouco. Lavou carros de médicos, foi jardineiro, pintor de paredes, pedreiro, carpinteiro, aprendeu a fazer pequenos e grandes reparos, e, aos poucos, foi aprendendo mais, aprendendo o trabalho dos enfermeiros.

Foi ali que Valdivino conheceu uma das irmãs de caridade, que prestavam serviços à Santa Casa. Seu nome se perdeu com o tempo. Mas, foi ela quem primeiro deu atenção e foi quem aproveitou os serviços de Valdivino no próprio hospital. Assim, ele passou a ajudar na faxina, trabalhou no necrotério, e aprendeu a arte da jardinagem. Até que foi designado para cuidar de coelhos no Instituto Pasteur e ajudar na fabricação das vacinas, segurando os coelhos para que fossem enlouquecidos. Ele, assim, iniciava sua fantástica história, sua missão de salvar vidas.

E lá foi ficando. Em uma das tentativas de cura, uma delicada cirurgia lhe causou seqüela irreparável. Valdivino passou a ter uma perna mais curta, o que lhe obrigou, por décadas, a usar um sapato 15 centímetros mais alto e mais pesado, feito de cortiça.

Em 1943 ganhou sua primeira e única carteira de trabalho. Durante um ano foi registrado como jardineiro na Santa Casa, de janeiro de 44 a janeiro de 45, quando o registro passou a ser de enfermeiro, trabalhando no Instituto Pasteur, anexo ao prédio do hospital, na verdade, em um porão da Santa Casa, na esquina das ruas Francisco Búrzio e Coronel Bittencourt.

Era onde se fabricavam e se aplicavam vacinas anti-rábicas. O cientista francês Luiz Pasteur foi o descobridor da vacina, que era preparada com medulas de coelhos infectados com o vírus.


 

Ainda jovem, Valdivino conheceu Maria Cecília Weckerlin , que viria a ser sua eterna companheira.

Moça recatada, filha de pais conservadores e, como a época exigia, bastante religiosos. Filha de Adolpho, pedreiro de mão cheia, que trabalhava no Cemitério São José, e que ajudou a construir uma das mais belas igrejas de Ponta Grossa, a Igreja São José. Sua mãe, Anna Maria, ou Anita, exemplar dona-de-casa, se tornou, zeladora daquela igreja.

Cecília teve como seu primeiro emprego uma fábrica de bebidas. Depois foi, durante alguns anos, telefonista na CTN, Companhia Telefônica Nacional, ainda no tempo em que se pediam ligações, que interurbanos demoravam horas ou mesmo dias para serem completados.

No tempo em que as telefonistas guardavam na memória todos os números e não se enganavam no momento de fazer as ligações, ou prestar informações.

 

 

Adolpho e Anita Weckerlin,
os pais de Maria Cecília.

 

 

A rua XV de Novembro, na década de 40, era bastante freqüentada por famílias e pelos jovens de então, para seus passeios, para o encontro com amigos. E foi lá que Valdivino conheceu Cecília, onde teve início uma belíssima história de amor. Ela, trabalhando na Companhia Telefônica, na Rua Santos Dumont, passava diariamente pela Rua XV, em direção ao trabalho.

E foi numa noite, quando fazia o trajeto, que, pela primeira vez, cruzou com Valdivino. Ele freqüentava aquela rua para encontrar amigos e ver as mocinhas. “Ela, na verdade, tinha um “namorado”, o que muitos anos depois, passou a ser chamado de paquera, pois , namoro, naquele tempo, era a troca de olhares, de sorrisos e uma conversa ou outra. Valdivino, o hoje também saudoso Rômulo Pazinato, e mais alguns colegas de Santa Casa, passeavam pela Rua XV, quando ele viu Cecília. Os olhares se cruzaram e, ousado, Valdivino, que naquele momento, estava encostado na parede do antigo Foto Weiss, “puxou conversa”. E deu certo. No dia 31 de maio de 1947, eles se casaram.

Cecília foi convencida pelo marido, que lhe queria sempre perto, a mudar de profissão. Também ela foi trabalhar na Santa Casa, onde, a exemplo de Valdivino, se aposentou. Ele pela doença; ela por tempo de serviço.

No instituto Pasteur, Valdivino aprendeu aos poucos a fabricar as vacinas. Quem lhe ensinou, e cujo nome se perdeu na história, se aposentou, cedendo-lhe o lugar e os ensinamentos. Já casado, ensinou o ofício à esposa, bem como algumas práticas de laboratório. Além daquele senhor, cujo nome não foi registrado, e que ensinou o ofício a Valdivino, um médico, orientava o casal: Antônio Penteado de Almeida, que era o responsável pelo Instituto Pasteur.

Durante muitos anos, Valdivino e Cecília, munidos de uma lanterna e um samburá improvisado, saiam de casa, à noite, quase que diariamente, descendo duas quadras, pelo carreiro, para chegarem onde, hoje, é a Praça Catarina Miró, e onde se encontra a escola municipal que tem o mesmo nome.
Era uma barroca, como se chamava na época, um pequeno arroio no meio do mato. As ruas próximas, hoje todas asfaltadas, não conheciam sequer cascalho. E, de onde hoje se encontra a praça, até onde, agora, existem luxuosos condomínios, na Avenida Anita Garibaldi, o que existia era um “potreiro”, uma área cercada com arame farpado, onde pernoitavam bois e cavalos. Era quase que um quintal do bairro chamado “Órfãs”.

Naquele local o casal caçava sapos, muitos deles. O que, depois, ensinaram a seus filhos, todos os cinco, desde crianças. A lanterna paralisava os bichos, que, facilmente eram apanhados. No quintal da casa, além de vários canteiros de verduras, que Valdivino tanto cuidava, ele criou o que denominou de “sapeiro”. Um grande recipiente de tijolos e cimento, coberto por uma tela de arame. Instalou uma lâmpada para atrair moscas, besouros e outros insetos, que eram a alimentação dos sapos, os quais, realmente, serviam para ajudar na alimentação dos filhos.

Não, ninguém naquela família comia sapos. Mas, aquilo tudo fazia parte do trabalho com o qual o casal garantia o sustento da família. Os sapos eram utilizados para exames laboratoriais, de teste de gravidez. O procedimento era mais ou menos assim: Um exame era feito na urina do sapo e, se aprovado, o bicho era selecionado para receber, por injeção, a urina da mulher. Duas horas e meia dois, a urina do sapo era novamente retirada, agora para análise, por microscópio, que comprovava, ou não, a gravidez. Digamos que, se fosse verificado que um sapo havia engravidado uma urina, sua urina não servia para o exame, pois já não causaria qualquer reação à urina da mulher supostamente grávida. Valdivino e Cecília foram ganhando conhecimentos na profissão e, além do Instituto Pasteur, trabalhavam no laboratório de análises clínicas da Santa Casa.


Voltemos ao porão da Santa Casa. Ao Instituto Pasteur. Era ali que o casal enlouquecia coelhos. Existia, em uma sala daquele porão, uma tábua, na qual os pequenos animais eram amarrados, dos pés à cabeça. Uma vez amarrado, o coelho tinha um pedaço da cabeça raspada, sobre o cérebro. Com um elemento pontiagudo, a cabeça era furada e retirada a medula para a fabricação da vacina anti-rábica. Para tanto, já havia um pequeno estoque de cérebros de coelhos enlouquecidos no mesmo laboratório e devidamente conservados. Um ciclo: num coelho era injetado o líquido do cérebro de outro animal enlouquecido. Deste, era retirada a medula para a fabricação da vacina. E seu cérebro era guardado para o mesmo procedimento em outros coelhos sãos. Em resumo, era fabricado o veneno nos animais, para combater o veneno nos seres humanos. Raiva contra a raiva, ao final.

Quando nos fez este relato, Cecília já contava com mais de 80 anos, não tinha a mesma memória de alguns anos atrás. E que era privilegiada. Mas, pode-se dizer que, pelas poucas informações que nos passou, era a única testemunha viva, em Ponta Grossa, de como, na época, com toda a precariedade de recursos, inúmeras vidas foram salvas.

As vacinas eram aplicadas na barriga da pessoa atacada por animais, por cães, em sua maioria. Quando alguém era mordido por um cão, e procurava atendimento, a primeira orientação era para que o animal ficasse em observação, durante 15 dias. Nesse período, como medida preventiva, a vítima recebia as doses diárias. Constatado que o animal não era raivoso, o tratamento era suspenso. Caso contrário, por qualquer reação estranha do animal, mesmo que não comprovada a raiva, outras 24 doses eram aplicadas. No caso de morte do animal, eram 30 as doses, as primeiras duas vezes ao dia.

Havia registro de ataques não apenas de cães, mas, de gatos, cavalos, vacas, e outros mamíferos, que apresentavam sintomas da doença, levando suas vítimas ao tratamento. O primeiro transmissor da raiva era o morcego, que atacava animais, os quais transmitiam a doença aos humanos.

Cecília recordou, no depoimento que nos deu, de um caso assustador, ocorrido em maio de 1950. No Bairro São José, onde moravam, havia um açougue. Foi descoberto que, àquele açougue, foi vendida a carne de um boi que fora encontrado morto em um potreiro. Aquela carne foi revendida a fregueses do açougue, que era muito conhecido na cidade, sendo que pessoas de diversos bairros ali faziam suas compras. Foi constatado que aquele animal havia sido mordido por um morcego, que lhe transmitiu a raiva.

Desespero geral. Não havia como se saber quais e quantas pessoas havia ingerido a carne daquele animal. Conclusão: todas as pessoas que, naqueles dias, estiveram no açougue, bem como seus familiares, estavam sob risco da doença. Além disto, aquele açougue fornecia carne para restaurantes, padarias, para a fabricação de pastéis e outros produtos. A situação era dramática.

A notícia se espalhou e o pânico se estabeleceu. Cecília lembra que ela e o marido atenderam 940 pessoas, entre adultos, idosos e crianças. A emergência levou o casal a adotar medidas urgentes, como a busca de coelhos por toda a cidade, para a fabricação da vacina em uma quantidade extremamente superior ao que se poderia chamar de rotina. A rua ao lado da Santa Casa foi fechada devido ao enorme volume de pessoas. Pela janela do Instituto Pasteur, Cecília chamava as pessoas, uma a uma, enquanto Valdivino aplicava as vacinas. Isto depois de exaustivo trabalho de fabricação das doses. Jamais se saberá quantas daquelas 940 pessoas ingeriram da carne daquele animal. Quantas, de fato, correram risco de vida. Mas, o que se sabe, é que todas sobreviveram.

Somaram-se a centenas e até milhares que passaram pelo Instituto Pasteur, pelas mãos e pelo cuidado da Valdivino e Cecília de Castilho. Como, também, sobreviveram seus cinco filhos e o próprio casal, que, durante tantos anos tiveram contato direto com pessoas infectadas e com animais enlouquecidos.

Graças à vacina que eles mesmos fabricavam e aplicavam, neles próprios e nos filhos. Insalubridade era palavra que o casal, durante muitos anos, apenas conhecia, mesmo manipulando veneno.

O trabalho de Valdivino não se limitava ao recinto do Instituto. Sua vida era dedicada à prestação de serviço. À noite, na madrugada, nos finais de semana, feriados, era chamado e, imediatamente, seguia para bairros de Ponta Grossa e mesmo a cidades vizinhas, para prestar atendimento, verificar a situação de pessoas atacadas por cães e as condições dos animais.

E Cecília prestava esse serviço em casa, nas mesmas situações. Quando o casal finalmente conseguiu comprar uma geladeira para atender às necessidades da família, ampliou o atendimento. Já podia manter em casa algumas doses da vacina e, assim, fora do horário de trabalho, podiam atender casos de emergência, sem qualquer ganho extra. Os filhos crescendo, a vida seguindo, no trabalho e nos afazeres domésticos. A horta, o jardim, o cabo da enxada, agora para cuidar do próprio quintal. A escada de madeira, agora para pintar a própria casa.


Foi um dos primeiros moradores do Bairro São José, quando pode adquirir um terreno, na esquina das ruas Marquês de Olinda e Antônio Vieira, local hoje denominado Vila Catarina Miró. Quando terminava o expediente no hospital, o casal seguia para o terreno, carregando tábuas, uma filha no colo, um filho na gaiota, ou no carrinho de mão. Aos poucos construíram a nova casa, onde hoje mora uma de suas fiolhas, e onde Valdivino e Cecílias viveram até seus últimos minutos.

Durante mais de 40 anos de sua vida, Valdivino conviveu com uma ferida aberta, osso exposto, mas, que não lhe tirou, mesmo com todas as dores, a vontade de viver, a força para trabalhar.

A dor acompanhava Valdivino em praticamente todos os seus momentos. Com ela chegou a se acostumar. Era amenizada pelo carinho da esposa que, diariamente, limpava sua ferida e lhe fazia os curativos. O osso do pé sempre à mostra, quando não coberto por gaze e algodão

Outra tentativa de cura, feita pelo médico Orlando Moro: Um enxerto, um pedaço da coxa poderia tapar aquele buraco no pé. O transplante lamentavelmente não passou de tentativa. Por outros anos, a situação permaneceu. Até que a ferida se tornou um câncer incurável. Valdivino, que teve como companheiro aquele sapato enorme, dele se despediu no mesmo dia em que se despedia de sua perna, amputada um pouco abaixo do joelho. Foi a única solução.

Durante muito tempo, sua perna foi substituída por muletas. Encostado pelo INPS, depois aposentado, Valdivino, com a ajuda de amigos, conseguiu uma prótese, fabricada pela APR – Associação Paranaense de Reabilitação. Ganhou nova vida, livre da ferida e livre do câncer. Cecília deixou de limpar a ferida do marido. Sua missão, agora, além de continuar trabalhando na Santa Casa, era a de, todos os dias, colocar a perna no marido. Esquentar a água para seu chimarrão e, como já fazia há muitos anos, ajudá-lo a preparar os apetrechos de pesca. Valdivino foi um grande pescador, que visitou vários locais e conhecia todas as manhas do Rio Tibagi.

Valdivino viu morrerem todos os seus irmãos. E viu morrerem praticamente todos os seus amigos e companheiros. Resistiu ao tempo, à dor, às dificuldades. Resistiu a um primeiro câncer, mas, sucumbiu a um segundo. Depois de lutar pela vida, com mais uma cirurgia, que lhe garantiu mais seis meses de vida, anunciados pelo Dr. Winston Bastos, no dia 9 de novembro de 2005, ao 87 anos, Valdivino de Castilho nos deixou, legando a seus filhos e aos filhos de seus amigos, e a todos nós, um exemplo de vida.

Dos filhos de Cecília e Valdivino, uma está morando no Mato Grosso, cidade de Cáceres. Enquanto tiveram forças, os pais visitaram a filha, periodicamente. Quando aposentados, ele já não mais pescador, o casal passava o tempo, cada um com seus afazeres muito pessoais, na maioria das vezes jogando paciência na mesa da copa, que também era cozinha. Ele, além disso, tomando seu chimarrão, contando suas histórias. Ela, escrevendo textos religiosos, enchendo vários cadernos com dizeres maravilhosos. Para cada filho, deixaria um desses cadernos com suas mensagens.

Os dois, enquanto puderam, freqüentando a missa do sábado na Capela Santa Catarina, a algumas quadras da residência. Ambos vendo tudo mudar ao seu redor. Já não havia mais o imenso quintal, a horta, os canteiros, mas, a casa de um dos filhos. Nem a própria casa era a mesma, modificada a cada dia por uma filha. Juntos, recordando os tantos momentos, as tantas histórias.

Cecília, quando já viúva, continuou com seu prazer maior de escrever, copiar e criar textos. Até que lhe faltou uma das vistas, e a outra enfraqueceu. Mas, ainda podia, a cada um ou dois anos, visitar a filha distante. Também, a neta distante. E foi numa dessas visitas que Maria Cecília, na casa da neta, caiu de uma escada interna, que ligava pavimentos.

Sua companhia, além dos filhos, e de um dos bisnetos, passou a ser um andador, o ual tinha uma cestinha, com seu terço e alguns pequenos e necessários pertences. Assim podia percorrer alguns cômodos da casa, especialmente do quarto à sala, da sala à copa.

Quase ao final, e depois de várias quedas, preferiu permanecer na cama, até o dia em que deixou os filhos, netos e bisnetos para, em 18 de agosto de 2011, refazer o casal que havia se separado. E, com Valdivino, tomara, encontrar os amigos que antes se foram, e conhecer aquEle a quem tanto amaram em vida.

Deixaram, por aqui, uma linda história, de grandes exemplos, de amor solidariedade. Uma historia que, pela fraca memória de Cecília para seu relato, deixou, com absoluta certeza, muitos e ricos detalhes, que jamais serão contados.


 

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COMENTÁRIOS

  • Marcelo Dobrzanski: Sem dúvida uma bela história de vidas! que interessantemente se revela tocante, de forma menor ou maior, à vida de inúmeros pontagrossenses. Moro na região do Orfãs/São José desde de nascença, conheço de vista o Castilho, jornalista que por várias vezes encontrei pela Balduino Taques fazendo o seu trajeto casa/trabalho, estudei com o Marcus, na pré-escola e depois algumas séries do primeiro grau., mas não conhecia a historia do Sr, Valdivino, e da Sra. Cecilia, muito menos sabia de como eram fabricadas as vacinas anti-rabicas Minha avó e meu pai tomaram esta vacina por conta de um cão raivoso que atacou-a causando arranhões nela, e meu pai, por estar sendo amamentado, teve que tomar a vacina também, isso em 46/47, na época eram residentes em Cândido de Abreu e foram tratados na Santa Casa de Ponta Grossa, possivelmente com a ajuda do Sr. Valdivino e de um coelho enlouquecido.
    06/11/2016 22:13

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