26/12/2016

O trem que levou maria

Eram quatro e meia, passava um pouquinho, o fosco clarinho rasgava o varjão, quando aquele trem saiu da estação levando uma porção de coisas minhas, minha primeira e única namorada, minha paixão, meu sonho e minha alegria de viver.

Ela foi embora, porque dizia estar cansada da vidinha de cidade pequena. Queria deixar de usar vestido de chita e se presentear com um Dior ou Versace, até Clodovil já estava de bom tamanho.

Queria deixar de tomar pinga com capilé e só bebericar Don Perignon, trocar o torresmo com mandioca por escargot e caviar. Festa junina, Mário Zan (...com a filha de João, Antônio ia se casar), nunca mais, daí pra frente era só Beatles, Rolling Stones, Elvis e Roberto, que já estava no auge.

Aquele trem também levou no, mesmo dia, o meu amigo de infância. Ainda me lembro dele, subindo no vagão com aquela velha mala amarela, que, na verdade, nem era amarela, era bege, que no final das contas ele disse que vendeu ela pra comprar um pão com mortadela. Vi quando ele se sentou no mesmo banco com um velho senhor e foram conversando, com certeza falando do seu vira-lata, que ele chamava de Sultão. Oh cachorro chato, pulguento e matador de galinhas. Tempos depois, ele fez uma música contando a história dessa mala.

Dois meses depois, minha princesa me escreveu contando da viagem. Disse ela, que o trajeto demorou um pouco mais que o combinado, porque o trem fez uma longa parada na cidade de Brodowsky, onde estavam erguendo um monumento em homenagem a um pintorzinho que tinha nascido naquela cidade. Minha fofura não conhecia, não devia ser ninguém famoso.

Ela falou também do lugar que estava morando e que já tinha arranjado serviço, ela era garçonete (toda moça do interior quando vai pra cidade grande, trabalha de garçonete ) e que tinha uma novidade, ela descobriu que estava grávida, eu ia ser pai.

Pra mim, foi a maior alegria. Minha parentada não gostou nem um pouco, mas o meu amigo quitandeiro japonês, o Watanabe, fez a maior festa, soltou rojão, fez uma churrascada e se embebedou a noite toda. Todo dia ele me perguntava dela, se estava bem, se ela precisava de alguma coisa. Parece que ele se preocupava mais do que eu, e olha que eles nem eram tão amigos assim.

Enfim, quase nos dias do bacuri mostrar as fuças, o meu anjo voltou pra casa. Ela pariu um molequinho com cara de joelho, que eu achava que parecia comigo. Todo mundo dizia que não, mas o importante que era meu sangue e eu já gostava muito dele.

Porém, minha alegria durou pouco. Quando o varãozinho desmamou, meu doce de coco quis ir embora de novo, seu sonho ainda não tinha se realizado, ela ainda não tinha comprado seu Versace, só comprava em brechó. Eescargot? Nem nunca viu, só comia acém com batatas. E foi!

Eram quatro e meia, passava um pouquinho e, de novo, aquele trem saiu da estação, levando uma porção de coisas minhas, minha amada, minha paixão, que, com o clima metropolitano, se tornou mais linda. E aquela preciosidade de zóinho esticadinho, meu amado filho Toshio.

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19/12/2016

Lucas.13.5

Minha mulher foi embora, escafedeu-se, deu linha na pipa, não quis nem saber se eu iria sofrer (e olha que eu sofri). Nem se preocupou se eu iria chorar (e olha que eu chorei) Ela foi muito má comigo, a maldade que ela me fez, foi quase dez por cento da maldade que eu fiz a ela.

Ela já tinha programado sua partida fazia tempo, mas o tontão aqui achou que ela não tinha coragem, porque ela era louca por mim. Quanta ilusão!

Lá em casa ficaram algumas coisas dela, uma blusa de malha, um chapéu de palha, seu violão novinho... também pudera! Ela nunca aprendeu a tocar, pra que levar? Deixou também uma bota de cano longo com um par de meias sujas dentro e, em cima de nossa cama (ultimamente era só dela, há muito tempo eu só dormia no sofá)... como eu ia dizendo, em cima da cama ela deixou a Bíblia aberta em Lucas, capítulo 13, grifado com caneta amarela o versículo 5, que eu li e reli inúmeras vezes pra tentar descobrir se ela queria me dizer alguma coisa com isso. Não cheguei a nenhuma conclusão.

Então eu fiz uma coisa que pra mim era um sacrifício, aliás, um enorme sacrifício.

Timidamente, atravessei a portona e entrei no recinto, sentei num banco lá trás, quase os últimos, fiquei prestando atenção nas palavras do padre. É isso mesmo, eu estava numa igreja. Nem eu mesmo estava acreditando. Por um bom tempo, estive tentando entender alguma coisa, mas como eu não tinha costume dessa prática, não entendi nada.

Fui outras vezes, foi a mesma coisa. Então eu mudei de igreja, comecei a ir na igreja de crente.

A princípio também não estava entendendo nada, o sermão do pastor era igual ao do padre, ele pregava sobre Cristo, João, Matheus, Marcos, mas eu queria que ele falasse de Lucas.

Então, uma noite, era domingo, sentou ao meu lado uma loira bonita da cabeça aos pés, trajada igual uma modelo e me cumprimentou: “A paz do Senhor”! Fiquei tão embasbacado, que demorei um bocado pra responder. No meio do culto o pastor pediu: “Abra sua Bíblia em primeira Corintios.13”. Como eu não tinha o livro, ela se ofereceu pra que eu lesse junto com ela e chegou mais perto de mim. Li as primeiras palavras e comecei a cantarolar... ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos... Renato Russo. Mas um sutil beliscão e o seu perfume de deusa me fizeram voltará à realidade, Aí eu me embasbaquei de vez. Na hora descobri que eu era crente de nascença. A partir desse momento, eu passei a esperar ansiosamente os dias de culto e a ensaiar todos os louvores.

Não sei se era coincidência, mas ela sentava sempre ao meu lado, quando não, eu me sentava ao lado dela.

Aquele versículo que foi grifado e deixado em nossa cama (agora só minha). Eu jamais entendi o que ele queria dizer. Também, hoje não importa mais, eu já nem lembro mais daquela nojenta e, pra esquecer de vez, joguei todas suas tranqueiras fora e, junto com elas, foram meu orgulho, prepotência e estupidez

Eu e a loira estamos pretendendo nos casar no ano que vem, é só eu me converter... Mas tá difícil, heim? A paz do Senhor!

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12/12/2016

O penico

Já fui artigo de luxo, já residi embaixo de camas com colchas de cetim, travesseiros de pluma de ganso, já fui trono de bumbum real, uns bonitos, outros feios, uns com apêndice, outros não.

Nunca reclamei do que era em mim depositado, pois foi pra isso que eu nasci, também nunca questionei se me dessem banho ou não, não fazia diferença.

Normalmente eu era branco esmaltado, talvez pra destacar meu conteúdo, ou simplesmente porque essa cor é a que ficava melhor em mim.

Vi o tempo passar, vi revoluções, guerras, pestes e quase nunca me mudavam, nem meu formato ou minha serventia. Muito raramente me transformavam em vaso. Já fui moradia de cravos, violetas, até girassol já se atreveu a morar em mim.

Na maioria das vezes, só a ferrugem era minha companheira, ela me acompanhava pelo resto da minha existência.

Tantas vezes fui jogado de janelas, junto com o que estava dentro de mim, algumas vezes de propósito, outras sem querer, nós três éramos atirados nas ruas de algumas cidades imundas de antigamente, e ali meus companheiros de tombo ficavam produzindo fedentina, até que a chuva nos levasse embora e nos despejassem em rios mais fedidos ainda.

Com a modernidade dos tempos e o progresso do mundo eu fui ficando obsoleto e esquecido, fui trocado por lindas obras de arte, feitas com mármores riquíssimos, porcelanas importadas, até mesmo por simples louça, ou então aquele velho buraco no chão.

Confesso que tenho saudade de quando eu era procurado, quando, no meio da noite, eu era acordado pra cumprir com minha função, fosse meu dono pobre, rico, doente ou aleijado, o produto era sempre o mesmo, uns mais fétidos, outros menos.

Já me fizeram de plástico, pra que eu me tornasse mais acessível à classe menos privilegiada, mas não tinha o mesmo romantismo do meu eu de outrora. Com certeza, já fui de ouro, de prata ou de outro metal nobre.

Hoje, não sou nada menos que peça de museu, moro em estantes fechadas, com plaquinhas grudadas em mim com dizeres: Pertenceu a fulano de tal, duque de não sei de onde, marquês de qualquer coisa, e outros personagens mais.

Ao meu lado, muitos outros eus, todos com uma pequena diferença, mas com a mesma finalidade. Fui e sou feliz, apesar de tudo e nunca irei dizer que essa vida é uma merda.

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