16/12/2016

Meus respeitos


Fiz um post comentando a morte de D. Paulo Evaristo Arns no Facebook e o bicho pegou. Dezenas de comentários criticando o comunista que simpatizava com Fidel Castro e ajudou na marcha do Brasil para a esquerda, até dar nisso que aí está.

Sim, D. Paulo tinha uma posição de esquerda. Como tiveram Ferreira Gullar, Antonio Abujamra, Ariano Suassuna, Rubem Alves, só para ficar nos que faleceram recentemente. E nem por isso podemos negar a importância de cada um deles para o Brasil.

É preciso tomar cuidado ao analisar o passado com as lentes do presente. Havia um contexto no final dos anos 60 e durante os 70. D. Paulo estava no olho do furacão e teve uma presença importante na sociedade brasileira, como tiveram centenas de outros esquerdistas já falecidos. O conheci pessoalmente em Brasília, foi muito atencioso e educado, e sempre me pareceu que, com a idade, foi se afastando da militância política. Faltou, como fizeram Ferreira Gullar e Fernando Gabeira, uma autocrítica.

Mas ao longo dos anos 1970 e 1980 não sei se seria possível, na posição que ele ocupava, agir diferente. O regime militar empurrou muita gente para a esquerda, e isso não transforma essa gente em demônios. Reduzir a passagem de D. Paulo pela terra à simpatia com Fidel Castro e movimentos sociais, à teologia da libertação, à ajuda na criação do PT e de Lula, sem considerar o contexto em que isso aconteceu é, no mínimo, míope.

D. Paulo foi mais que um comunista de batina, assim como Mario Lago foi mais que um comunista ator, Jorge Amado foi mais que um comunista escritor, Oscar Niemeyer foi mais que um comunista arquiteto… entre tantos outros.

Então, na Confraria Café Brasil, um dos participantes comenta meu post:

“Luciano, eu não me sinto capaz de opinar sobre ele pois nem sequer o conhecia, mas lendo isso que você escreveu agora fiquei com a seguinte dúvida: não é sobre isso que trata o marxismo cultural? Quero dizer, ocupar diferentes espaços com comunistas/marxistas e que seja natural que esses sejam mais do que comunistas, ou seja, pessoas influentes por terem atuações inegavelmente diferenciadas em suas áreas? Se fossem comunistas, mas fossem uns merdas, eles teriam influência de forma a atender a uma agenda marxista? Não estou afirmando nada, é apenas um pensamento que passou pela minha cabeça para apimentar o debate. Para mim não interfere a ideologia do cara pois o Café Brasil me ensinou a arte de comer picanha rs”.

Minha resposta:

“Claro que é assim. Eles ocupam áreas estratégicas, mas meu ponto é outro. O Brasil seria melhor sem D. Paulo? Sem Chico Buarque? Sem Betinho e Henfil? Sem Oscar Niemeyer? Sem Ariano Suassuna? Como só é possível responder essa pergunta com a conjunção subordinativa condicional ‘ se’, que nos mantém no reino das suposições, prefiro ficar com o benefício da dúvida: cada um desses cumpriu um papel importante na história do meu país e da minha vida. Chico, Darcy Ribeiro, Lima Barreto, Veríssimo e tantos outros… até Marilena Chauí, estão no lado oposto do meu no espectro político, mas há um pedacinho de cada um deles no que sou. Consigo ver em cada um coisas boas e coisas ruins. Sem justificar ou perdoar suas escolhas, na hora da morte, em vez de dizer “ainda bem que se foi”, eu digo “respeito mais um que se foi”. Eu não diria isso de psicopatas como Fidel Castro e Adolf Hitler, por exemplo, mas digo com tranquilidade sobre os que de alguma forma ajudaram a moldar quem sou.”

E se há algo que não sou, é comunista…

Portanto, meus respeitos D. Paulo Evaristo Arns. O senhor jogou do outro lado do gramado, mas ajudou a fazer de mim um jogador melhor.

COMPARTILHAR

ENVIE SEU COMENTÁRIO

NOME:
EMAIL:
MENSAGEM:
*Seu comentário será avaliado e aprovado antes de ser publicado. E somente aprovaremos comentários com o nome completo e o e-mail do leitor.
02/12/2016

Por que eu?

“… sim, mas naquela época se falava em câncer gay, eu me lembro da propaganda onde aparecia AIDS e um carimbo: morte! Aí eu disse para ele:

– Eu faço o exame sim, eu sei quem eu sou.

Daí ele me olhou sério e disse assim:

– A senhora também pensa que AIDS tem alguma coisa ligada com moral e conduta?

Eu olhei para ele rindo:

– E não tem?

Ele disse:

– Não senhora.

Foi a primeira vez que alguém me disse que HIV ou AIDS não tinham relação nenhuma com moral e conduta. Mas eu achei graça daquilo tudo e ele me passou a requisição para o exame. Depois eu contei para o meu filho, dando risada e comentando que o médico me levou para outra sala, constrangido de falar na frente dele. E aí nós saímos rindo os dois. Naquela época eu não sabia de nada, de coisa nenhuma a respeito de HIV, que não fosse Cazuza. E eu fui fazer o exame no plano de saúde. Peguei no laboratório meu resultado, abri e lá estava escrito: reagente. E a gente se protege pra não sofrer…  Eu digo:

– Legal, reagente, meu organismo reagiu, não tenho nada.

Era o que eu queria. Saí caminhando. Era um dia lindo de sol e no meio do caminho eu disse:

– Só um pouquinho… mas se deu reagente é porque reagiu! E se reagiu é porque é positivo!

Aí eu parei, abri a bolsa, olhei de novo e as letras pequenas diziam: reagente = positivo.

Bom eu brinco que a sensação que eu tive é a de história em quadrinhos, eu passei a ter uma nuvem negra sobre minha cabeça, querendo entender como eu, que tinha tido três homens na minha vida, estava com HIV. Eu não era promíscua, eu não consegui entender isso… mas por que eu? Anos depois fui descobrir que essa é a pergunta que todos nós fazemos quando temos um diagnóstico positivo: por que eu? E aquela nuvem negra, aquela coisa, eu fiquei caminhando pelo meu bairro…

Aí fui para casa, peguei o telefone e liguei para o meu marido. Só consegui dizer:

– Carlos, eu estou com AIDS!

Eu nem sabia a diferença entre ter AIDS e HIV, na realidade eu estava só com HIV. Deu aquele silêncio do outro lado e ele só consegui dizer para mim:

– Tô indo para casa.

Aí meu gordo chega e eu esperando que ele me desse um abraço gostoso e dissesse: ‘vai passar’… Só que eu não contava com o desconhecimento que se tinha daquilo tudo e que ele também tinha medo. Isso eu gosto de falar, porque muita gente se separa por causa de uma situação dessas. A gente tem que deixar as coisas passarem. Ele entrou desesperado e disse:

– Eu sou filho único! A minha mãe não caminha, depende de mim para tudo! E agora eu vou morrer!

Na cabeça dele, ele estava infectado também. Ele olhou para mim e disse:

– Tu é uma assassina!

Pô ele sabia que eu não sabia de nada! Quando ele disse ‘tu é uma assassina’, minha filha saltou e começou a bater nele. Anos depois a gente ficou sabendo que ela quebrou três costelas dele. A gente nem imaginava nada daquilo, mas foi assim uma baixaria aquilo, um pavor…”

Tá pensando que é enredo de novela? Mexicana? Não. Essa é uma história real, contada por Bia Pacheco no LíderCast 50. Bia foi a primeira mulher a assumir publicamente que tinha o vírus da AIDS no Rio Grande do Sul, na década de 90. E sua história é um misto de emoções, tragédia e superação. Uma lição de vida que, nesta semana em que celebramos o Dia Mundial de Combate à Aids, convido você a ouvir clicando aqui: http://bit.ly/LiderCast50

COMPARTILHAR

ENVIE SEU COMENTÁRIO

NOME:
EMAIL:
MENSAGEM:
*Seu comentário será avaliado e aprovado antes de ser publicado. E somente aprovaremos comentários com o nome completo e o e-mail do leitor.
29/11/2016

Cobertor de solteiro

Todo ano os Correios promovem uma campanha de Natal, incentivando crianças a escreverem para o Papai Noel pedindo um presente. Essas cartas são distribuídas pelas agências, e qualquer um de nós pode escolher uma ou mais cartinhas e mandar o presente que a criança solicitou. Eu já fiz isso e é sempre uma surpresa. Existem milhares de cartas em que as crianças pedem videogames, computadores, ipads e outros objetos de consumo. Mas em meio a elas, outras milhares que são um soco no estômago.

No grupo do Telegram da Confraria Café Brasil, um dos participantes publicou esta semana a cartinha que ele pegou. E que diz assim:

“Querido Papai Noel, me chamo Priscila da Silva, tenho dez anos estou no quinto ano, adoro estudar estou escrevendo para minha prima Amalia, ela tem 8 anos mora com a minha tia e meu primo, como ela é especial fica na cama deitada ou na cadeira de roda. Gostaria de ganhar 2 cobertor de solteiro um para mim e um para ela. Vai ajudar muito neste inverno foi bem frio e minha tia não tem condições de comprar porque vive de doação da igreja e do benefício que ela recebe. Muito obrigado, tenha um natal iluminado”.

Vi a imagem da cartinha e li o texto no exato momento em que recebia a informação que o ex-ministro Geddel de Lima entregava sua carta de demissão para Temer, em meio a um escândalo que envolve um apartamento de 3,5 milhões de reais, que na verdade deve ser apenas a ponta do iceberg.

Ir de um post ao outro é como sair de uma sauna e cair numa piscina de gelo, um choque tremendo entre duas realidades, ambas revoltantes.

De um lado as vítimas. No meio eu. De outro lado os carrascos.

De um lado um sonho: um cobertor. De solteiro. Como presente de natal.

De outro a ganância: riqueza, poder, não importa como.

E eu no meio: o que faço?

Posso correr nos Correios e mandar um cobertor também. Ou dez. Ou cem. Posso vir aqui no Face ou ir domingo na avenida Paulista manifestar minha indignação contra os corruptos. Legal, já é alguma coisa, mas nada disso muda a realidade. Nada disso resolve a vida da Priscila. Muito menos a dos Geddéis.

É preciso ir mais fundo, mais longe, mais forte. É preciso recuperar o respeito. Perdemos o respeito por nós próprios, pelas instituições, pela lei, pelas autoridades. Estamos perdidos, como torcidas adversárias se matando enquanto o estádio pega fogo. O que fazer?

Mais.

Se o que você consegue fazer é reclamar no Face, reclame mais. Se consegue se candidatar a um cargo para representar os cidadãos, candidate-se mais. Se só consegue ir pra avenida na manifestação, vá mais. Se consegue ir a Brasília pressionar o deputado, pressione mais. Se só consegue doar seu tempo, um cobertor, doe mais. Se só consegue bater panelas, bata mais. Grite mais, reclame mais, mobilize mais gente, encha mais o saco deles.

Se você só consegue ser honesto, seja mais.

A cartinha da Priscila é um grito por respeito, um soco no estômago de quem tem sonhos de conquistar o mundo, de se transformar naquele sucesso estrondoso, de ter muito, de ser como aquele bilionário da capa da revista. Para a Priscila, o Natal será feliz com um cobertor de solteiro.

E os Geddéis? Que também fiquem felizes no Natal ao receber um cobertor de solteiro.

Dentro de uma cela fria em Curitiba.

COMPARTILHAR

ENVIE SEU COMENTÁRIO

NOME:
EMAIL:
MENSAGEM:
*Seu comentário será avaliado e aprovado antes de ser publicado. E somente aprovaremos comentários com o nome completo e o e-mail do leitor.
- As informações e conceitos emitidos em colunas, matérias e artigos assinados são de inteira
responsabilidade de seus autores, não representando necessariamente a opinião do Plantão da Cidade.